Curso #13: O antagonista

Vimos no artigo anterior como é fundamental ter um personagem fascinante como protagonista da nossa história. E que ser fascinante não é o mesmo que ser bonzinho, ou simpático, ou sequer positivo. É simplesmente ter as características necessárias para que os espectadores tenham interesse em saber, em cada momento, o que lhe vai acontecer a seguir.

Mas não é suficiente acertar no protagonista.

Um filme é um mecanismo de relógio em que cada peça tem de funcionar perfeitamente para que o todo também funcione. Ou, usando uma outra metáfora mais comum, uma história é como uma orquestra, em que todos os elementos têm de ser bem escolhidos pois basta um desafinar para a música já não soar bem.

Assim, é fundamental seleccionar corretamente todos os personagens da nossa história, a começar, naturalmente, pelo antagonista.

O antagonista

O antagonista é o personagem que representa a principal força opositora ao protagonista.

Uma história pode ter vários antagonistas, obviamente, mas normalmente há um deles que se destaca pela sua importância. É aquele elemento que para atingir os seus próprios objectivos tem de impedir o protagonista de atingir os seus. Isso pode acontecer porque ambos querem a mesma coisa – a arca perdida – ou querem coisas diametralmente opostas – destruir o mundo X salvar o mundo.

Em muitas histórias o antagonista principal não é sequer humano. Por exemplo, o Terminator, ou a maior tempestade de todos os tempos.

Mas quando o antagonista é humano, ou tem características humanas, devemos ter ao criá-lo basicamente as mesmas preocupações que tivemos em relação ao protagonista.

A história ganha imenso se o antagonista também for ativo, interessante, multi-dimensional e tiver um arco de transformação.

Estas duas últimas características são menos importantes, pois há antagonistas fantásticos que não são complexos, como o já mencionado Terminator, ou não sofrem transformações, como Hans Gruber, em “Die Hard“.

Mas se não forem tão ou mais ativos do que o protagonista, e igualmente fascinantes, não estão a contribuir como deviam para o sucesso da história.

Quando os antagonistas têm toda a riqueza e complexidade dos melhores protagonistas os filmes ganham uma nova dimensão e profundidade.

Um dos melhores exemplos é, sem dúvida, Annie Wilkes, a personagem interpretada por Kathy Bates  no filme “Misery“. Neste guião de William Goldman a partir de um romance de Stephen King, Annie Wilkes é a maior fã do escritor interpretado por James Caan. Quando, por uma daquelas coincidências tramadas, este sofre um acidente de carro é recolhido e tratado por Annie.

Mas o que parece ser uma coisa boa começa, aos poucos, a transformar-se num pesadelo quando a fã, enfermeira e anfitriã começa a revelar os seus lados mais escondidos.

Neste caso, Annie Wilkes tem todas as características anteriormente referidas. É activa (com uma marreta na mão, então…); é absolutamente fascinante na sua loucura; é incrivelmente complexa, conseguindo balançar entre a maior crueldade e a maior doçura; e sofre um gradual e desconcertante arco de transformação, ou, melhor dizendo, um “arco de revelação”.

Em casos como este o personagem não se transforma realmente; ele só se transforma aos nossos olhos, revelando o que já era mas nós ainda não tínhamos percebido. Mas, para os efeitos de envolvimento do espectador, o resultado é o mesmo.

O filme “Misery” é também um exemplo perfeito de um outro aspecto fundamental na escolha e desenvolvimento do antagonista: a unidade dos opostos.

A unidade dos opostos

O que é então a unidade dos opostos?

É a necessidade que temos de criar as condições certas para que protagonista e antagonista estejam de alguma forma presos um ao outro. As circunstâncias que criamos para o seu conflito devem ser de tal ordem que os  dois oponentes não podem limitar-se a virar costas e abandonar a luta.

Se protagonista e antagonista estiverem – metaforica ou realmente – acorrentados um ao outro, à maneira dos gladiadores romanos, a confrontação, além de inevitável, é mais dramática.

É o caso de “Misery”. Depois do acidente Paul Sheldon está preso a uma cama, incapacitado. O conflito surge quando Annie descobre que o escritor vai matar a sua personagem favorita nos romances. Paul não tem como fugir dos “cuidados intensivos” de Annie e tem de encontrar as formas de a combater naquela situação.

Mas há mais exemplos: em “Os condenados de Shawshank” Andy está preso e os seus antagonistas (alguns outros presos, os guardas e o director) também estão confinados aquele espaço e vida; em “Die Hard” John McLane não pode fugir da torre Nakatomi porque a mulher é refém de Hans Gruber; em “Os salteadores da arca perdida” Indiana Jones quer a mesma arca que os rivais nazis e os seus colaboradores; em “Toy Story” Woody e Buzz são ambos brinquedos de Andy e têm de disputar a sua preferência.

Os exemplos poderiam continuar indefinidamente, pois não há praticamente um bom filme em que essa unidade dos opostos não se verifique.

Em todos estes casos, protagonistas e antagonistas estão presos uns aos outros porque têm os mesmos objectivos ou objectivos diametralmente opostos; e não podem encolher os ombros e seguir a sua vida noutro lugar qualquer porque o que está em jogo é demasiadamente importante.

No próximo artigo falaremos dos restantes personagens que é preciso desenvolver para completar o “casting” da nossa história. Entretanto, aqui fica uma pequena galeria dos melhores antagonistas de sempre.

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Este Artigo Tem 8 Comentários

  1. Cícero Soares

    Curioso. Tive várias ocasiões de seguir esse “Misery”. Sempre começando a vê-lo e… E nada. E olha que tenho grande respeito pelo J. Caan e K. Bates, e alguma coisa da filmografia do Rob Reiner até me agrada, mas…

    (Não sei, talvez o conflito aí me contaminou mais do que eu esperava. Mas talvez agora, com olhos de guionista, me esforce e consiga superar isso.)

    E o mais curioso ainda, João, é que senti as mesmas dificuldades com “What Ever Happened to Baby Jane?” Aqui, porém, fui de cabo a rabo, sempre! rs. Também um bom exemplo, não é, João?

  2. Rodrigo

    Muito legal seus artigos, estou aprendendo bastante, são tantas informações para se estruturar um bom guião e com esses exemplos que você cita fica de fácil entendimento. Muito bom, aguardo os próximos artigos. No que eu puder ajudar estou a disposição.

  3. Lucas de Souza Monteiro

    Parabéns, mil vezes parabéns!!
    Pra quem quer começar, como eu queria, e nao sabia por onde o fazer…
    eis que surge João Munes com um blog fantástico.

  4. Tulio

    Muito bom o post!
    Só faltou o Darth Vader no vídeo em anexo =)

  5. Pedro

    Se possível, alguém me pode informar de que filme provém a personagem, em preto e branco aos 1:43? Fiquei completamente fascinado pela expressão deste actor! Obrigado.

    1. glauber

      Norman Bates, ao final de Psicose

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.