Aguinaldo Silva: é assim que eu escrevo (parte 1)

Há vários anos que desenvolvo uma série de entrevistas com guionistas sobre os seus métodos de trabalho. No entanto, até hoje, a série ainda não contava com um autor de novelas. Que isso aconteça logo com o mestre Aguinaldo Silva é uma enorme honra, que devo agradecer ao próprio, e também ao meu amigo e leitor do blogue, Felipe Petruccelli.

Quem é Aguinaldo Silva?

Aguinaldo Silva é um dos mais conhecidos e premiados autores de novelas no ativo, tendo escrito as obras de maior audiência no Brasil na década de 1980, Roque Santeiro, na década de 2000, Senhora do Destino, e na década de 2010, Fina Estampa.

Aguinaldo Silva

Tem ainda a particularidade de ter recebido dois prémios Emmy Internacional por duas telenovelas produzidas em países diferentes: o primeiro pela supervisão da telenovela portuguesa Laços de Sangue; o segundo como autor da telenovela brasileira Império.

O nome de Aguinaldo Silva já apareceu por diversas vezes aqui no site, especialmente num artigo onde confessei a minha admiração pela sua postura face às emissoras. Mas não há nada como ler as suas palavras na primeira pessoa, explicando todo o processo de escrita de uma telenovela.

A Série

Com um currículo destes, deve haver poucas pessoas mais adequadas do que Aguinaldo Silva para falar do processo de escrita de uma telenovela. A entrevista que nos concedeu é tão rica e interessante que decidi dividi-la em três partes.

Na primeira, Aguinaldo falará de temas como a autoria, a importância das audiências e o politicamente correto; a 2ª parte será dedicada a temas mais técnicos, explorando o processo de criação e escrita de uma telenovela, desde a organização da equipa à rotina do autor.

Decidi ainda acrescentar uma terceira parte com um resumo desse processo de escrita, retirado das suas palavras.

Os Brindes

Em cada um destes artigos haverá um bónus, da autoria do próprio Aguinaldo Silva:

  • a sinopse completa da premiada novela Império (quando ainda se chamava Falso Brilhante), no fim deste 1º artigo;
  • uma escaleta da novela Fina Estampa, no 2º artigo;
  • e, no 3º artigo, um capítulo completo dessa mesma Fina Estampa.

Um dos pedidos mais frequentes que me é feito pelos leitores do site é exemplos de documentos reais de telenovelas. A generosidade de Aguinaldo Silva vai permitir que, desta forma, os possa finalmente satisfazer.

Entrevista a Aguinaldo Silva (1ª parte)

Sem mais delongas, aqui fica a 1ª parte desta grande entrevista de Aguinaldo Silva, para satisfação de todos os leitores que sonham em criar uma telenovela, ou apenas querem perceber melhor como essas obras são escritas.

João Nunes/Felipe Petruccelli: Olá Aguinaldo, mais uma vez muito obrigado por ter aceitado este convite.

O Aguinaldo iniciou a sua carreira aos 16 anos, tendo sido o mais jovem escritor do Brasil. Mais tarde ingressou no jornalismo, onde a sua primeira função foi a de copydesk, correto? Como surgiu a oportunidade para se tornar um guionista de TV? Você mesmo buscou esse caminho ou o destino é que o empurrou em tal direção?

Aguinaldo Silva: Nunca me passou pela cabeça ser um roteirista de televisão. Na verdade, por força do meu trabalho no jornal – saía sempre muito tarde – nunca tive interesse pelo veículo e, até deixar de ser jornalista, nunca tinha acompanhado uma novela.

A oportunidade surgiu de uma série de fatores: eu era escritor – já tinha publicado vários livros – e era jornalista especializado em assuntos policiais. Por isso fui chamado pela Rede Globo para fazer parte da equipe que escreveria um seriado chamado Plantão de Polícia em 1978 e de lá só saí 42 anos depois.

JN/FP: No cinema, sabemos que o realizador é considerado o autor da obra e ao guionista cabe um papel secundário. Na TV, porém, esse cenário inverte-se. Já aconteceu o Aguinaldo precisar de pedir a troca do realizador no meio de uma novela, por entender que ele estava a prejudicar o seu trabalho? Não precisa citar nomes.

AS: Nunca cheguei a esse ponto, embora algumas vezes o quisesse. Mas o roteirista de televisão sempre recebe o crédito da autoria e é quem manda. Já no cinema, o roteirista não manda, o diretor pensa que manda, mas quem manda mesmo é o produtor e dane-se.

JN/FP: E até onde vai esse “poder” dos autores? Por exemplo, vocês interferem na formação do elenco?

AS: A escolha do elenco é uma longa batalha envolvendo a emissora, o diretor e o autor. Dura meses. Concessões são feitas por todas as partes envolvidas. Nem sempre o autor consegue ter o elenco dos seus sonhos, mas se conforma quando percebe que, no fim de contas, os atores escolhidos são todos competentes.

JN/FP: Alguns colegas seus já declararam que se preocupam até mesmo com a trilha sonora. É o seu caso?

AS: Na música me envolvo muito pouco. Há profissionais mais capacitados que eu para cuidar disso.

JN/FP: Qual a intervenção da emissora ou de outras pessoas (produtores, realizadores, etc) neste processo? Elas costumam ser muito presentes no dia a dia da escrita?

AS: O diretor, sim. A direção de arte também e a figurinista. O produtor só quando quer reclamar de alguma coisa. Já a emissora, se a novela está fazendo sucesso, se finge de morta. Ah, sim: os atores são, como se fiz no Brasil, “uns fofos”. Mas respeito é bom e eu gosto.

JN/FP: Você costuma cobrar fidelidade ao seu texto? Aborrece-se quando os atores mudam as falas por conta própria?

AS: Sim. O hábito da improvisação é pernicioso nas novelas por uma razão: só o autor sabe o futuro da novela. E, às vezes, na sua improvisação, um ator pode dizer uma fala que anule ou deixe de explicar alguma coisa que vai acontecer lá adiante em sua trama.

JN/FP: Já “matou” ou fez desaparecer algum personagem, porque o ator/atriz não conseguiu captar o tom desejado?

AS: Não. Matei um personagem porque o ator que o interpretava era desagregador e tornava o ambiente das gravações um inferno. Falava mal de todo mundo, desde o autor da novela a Jesus Cristo.

JN/FP: Já se sentiu pressionado a mudar os rumos de uma novela ou a trilha de determinada personagem por causa da audiência?

AS: Já. Isso acontece constantemente. A novela não é escrita para agradar ao ego dos que a escrevem, mas sim, para prender a atenção dos telespectadores. São estes que mandam na novela.

A novela não é escrita para agradar ao ego dos que a escrevem, mas sim, para prender a atenção dos telespectadores. São estes que mandam na novela.

Aguinaldo Silva

JN/FP: Como lida com todo esse estresse? Há alguma estória curiosa, educativa ou engraçada que gostaria de nos contar?

R. Gosto de citar a substituição de uma atriz no meio de Império: Drica Moraes adoeceu e foi proibida de gravar pelo médico. Ela era a vilã da novela. Não havia o que fazer, sem ela a novela virava um arremedo.

Aí tive a ideia de chamar, sem qualquer transição, Marjorie Estiano, que tinha interpretado a personagem quando jovem. Não havia outra saída, a emissora concordou, mas deixou bem claro que a responsabilidade era só minha.

Tudo isso foi decidido e gravado em menos de 24 horas. Só fiz uma mudança na cena original. Quando o Comendador entrava no quarto e encontrava Cora, a personagem, vinte anos mais jovem, perguntava a ela espantado: “O que aconteceu com você, que virou outra?” A resposta de Cora: “Vamos deixar de lado os detalhes sórdidos. Estamos aqui para tratar de outros assuntos”. A cena continuou e, dois minutos depois, a audiência tinha subido seis pontos.

Cora & Cora: duas atrizes, o mesmo personagem.

JN/FP: A Globo acabou de voltar a exibir a novela Fina Estampa, escrita por si em 2011, e a audiência bombou. O que explica essa preferência do público por novelas mais antigas, elas realmente eram melhores ou trata-se apenas de memória afetiva?

AS: Memória afetiva não existe na televisão. O que as pessoas vêem hoje, amanhã já esquecem. Mas é importante lembrar que Fina Estampa, exibida em 2011, é até hoje a novela de maior audiência da década, com 39.8 pontos de audiência. Ou seja: ela caiu no gosto do público na época e caiu de novo agora – terminou com 33.6 de audiência.

Por que fez sucesso agora? Talvez por ser uma novela bem humorada e solar, que coloca, de um modo bem exemplar, a discussão sobre o que é melhor: o caráter ou a aparência.

Esse tema, com o advento das selfies e blogs, ficou mais atual que nunca.

JN/FP: O formato das telenovelas precisa ser reinventado ou retornar às origens? Está a faltar “novelão”?

AS: Tive há pouco uma reunião com executivos da Netflix, que me disseram: “Queremos melodrama!” Ou seja: eles querem “novelão”.

Acho que algumas novelas têm vergonha do fato de que são melodramas, tentam ser alguma coisa a mais, porém aí não dá certo. Novela é melodrama, é “novelão” e ninguém vai conseguir mudar isso.

JN/FP: Há algum trabalho seu na televisão (novela, série ou minissérie) de que gostaria de fazer uma releitura?

AS: Não.

JN/FP: Sabemos que o ofício de um autor de novelas é muito desgastante, não só pelo trabalho de escrita, propriamente dito, mas por todo o estresse que envolve a produção de uma obra audiovisual. Já aconteceu sentir vontade de jogar tudo para o alto e pular do barco?

AS: Uma vez ameacei fazer isso, mas foi apenas uma atitude política. Eu precisava ganhar uma guerra de poder que acontecia dentro da novela e que a prejudicava.

Sem medo de guerras de poder.

JN/FP: Como lida com as críticas dos media e do “tribunal da internet”? Você tem medo de ser “cancelado”?

AS: Nem penso nisso. Mesmo porque, no fim de contas todos nós seremos cancelados pela morte. Incluindo os canceladores da internet.

JN/FP: Até que ponto o politicamente correto limita o trabalho dos autores?

AS: Vivi os tempos horríveis da ditadura militar, tive muita coisa censurada – incluindo programas inteiros. E, baseado na minha experiência, posso dizer que censura é censura.

E eu não vejo diferença entre a daquele tempo e a do politicamente correto de agora. A atual é ainda pior, porque é feita por anônimos na internet e repercute sem que se possa seguir seu rastro.


A 2ª parte desta entrevista será publicada neste site na próxima semana.

O brinde de hoje

Império é uma telenovela brasileira em 203 capítulos, exibida entre 2014 e 2015, no horário das 21:00, na Rede Globo. Escrita por Aguinaldo Silva, com a colaboração de Márcia Prates, Nelson Nadotti, Rodrigo Ribeiro, Maurício Gyboski, Renata Dias Gomes, Zé Dassilva, Megg Santos e Brunno Pires, recebeu o prêmio Emmy Internacional de melhor telenovela em 2015.
A sinopse original, aqui apresentada, da autoria de Aguinaldo Silva, tinha ainda o título provisório de Falso Brilhante.

Luiz Felipe Petruccelli, carioca, é um historiador, pesquisador, professor e dramaturgo. Entre as suas obras contam-se as peças Faces e Mercado Amoroso, e a longa-metragem Gosto de Fel, em fase de finalização, escrita em coautoria com Beto Besant. Felipe também colaborou na sinopse da novela O Sétimo Guardião, de Aguinaldo Silva, exibida pela Rede Globo de Televisão, e escreveu diversos pilotos de séries de ficção. É leitor de longa data deste blogue.

Aguinaldo Silva: é assim que eu escrevo (parte 1)

Este Artigo Tem 2 Comentários

  1. Muitos Parabéns pela entrevista. Aguinaldo Silva para mim é uma referência desde Suave Veneno.

    1. João Nunes

      Obrigado. N?o perca a segunda parte, já para a semana.

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.