Aguinaldo Silva: é assim que eu escrevo (parte 3)… e oferta de um capítulo.

Neste 3º artigo da série desenvolvemos o conteúdo da entrevista com Aguinaldo Silva, explorando com mais detalhe as diversas etapas da escrita de uma novela, através de uma MasterClass que o famoso autor recentemente gravou em vídeo.

Aguinaldo Silva é um dos mais conhecidos e premiados autores de novelas no ativo, tendo escrito as obras de maior audiência no Brasil na década de 1980, Roque Santeiro, na década de 2000, Senhora do Destino, e na década de 2010, Fina Estampa.

Os Brindes

Em cada um dos artigos desta série há um bónus, cedido pelo próprio Aguinaldo Silva:

  • a sinopse completa da premiada novela Império (quando ainda se chamava Falso Brilhante), já entregue no 1º artigo;
  • uma escaleta da novela Fina Estampa, que pode baixar no 2º artigo;
  • e, no fim deste 3º artigo, um capítulo completo dessa mesma Fina Estampa, correspondente à escaleta anterior.

O Vídeo

Não esperaríamos que Aguinaldo Silva fosse convidado para dar uma MasterClass num Festival de Filmes de Terror, mas o facto de o ter sido testemunha bem da sua popularidade e transversalidade.

Sugiro que reserve a próxima hora para ouvir Aguinaldo Silva explicar de viva voz todo o trabalho envolvido na criação de uma telenovela. Será um tempo bem aproveitado.

As Etapas da Criação de Uma Novela de Televisão – Notas

A Ideia

“A cabeça do autor funciona assim: vai arquivando acontecimentos e um dia estes regressam, transfigurados em ficção.” – Aguinaldo Silva

Aguinaldo Silva(AS) começa por alertar os candidatos a autores de telenovela de que deverão preparar-se para abdicar da sua vida pessoal por 18 meses, tempo que demora a “parir e escrever” uma obra dessa dimensão.

A ideia central da telenovela é a primeira coisa a surgir. Depois vêm os personagens[1] e só no fim o elenco. Alguns autores começam ao contrário: imaginam o elenco ideal que gostariam de ter na sua novela e criam personagens e estórias para eles.

AS apoia-se na sua longa experiência de vida, incluindo os seus 18 anos como jornalista, para originar a criação de tramas, acontecimentos e personagens. Faz por isso duas recomendações aos autores: em primeiro lugar, que vivam.

Os autores precisam de ter experiência de vida, o mais diversificada possível, passando por muitas situações e lidando com todos os tipos de pessoas, para poderem usar tudo isso, transformado, nas sua estórias.

Para AS um problema comum a muitos guionistas mais jovens é que vêm de famílias de classe média urbana, com vidas muito protegidas entre o colégio privado e o condomínio fechado, sem suficiente exposição à “vida real”. AS desafia-os a sair para a rua e viver, deixando de lado preconceitos e couraças ideológicas, e cita até Pessoa, lembrando que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena“.

A segunda recomendação, que nasce da primeira, é que os autores devem ir mantendo um arquivo das situações, eventos e pessoas interessantes, para que possam mais tarde tirar daí a inspiração para as suas estórias.

Dá como exemplo Griselda, a protagonista da novela Fina Estampa, que foi baseada em alguém que conheceu na vida real mais de 30 anos antes de a usar como personagem.

Griselda, de Fina Estampa, esteve arquivada mais de 30 anos antes de ganhar vida e sucesso.

Mas a experiência de vida, só por si, também não chega. Todos estes personagens e eventos, arquivados e depois ressuscitados pelo autor, têm de ser transfigurados pela sua criatividade e arte para se transformarem em elementos de uma obra ficcional.

A Sinopse

Depois da emissora “intimar” o autor a escrever uma nova novela este tem de lhe apresentar mais do que uma boa ideia. Para isso o autor enfia-se em casa durante dois meses e escreve uma sinopse muito bem acabada.

A sinopse é o documento que vai ser aprovado pela emissora e distribuído por todos os envolvidos: atores, produtores e realizadores. É um documento muito específico, que já inclui a trama principal, as subtramas, as grandes viradas da estória, e os personagens.

Isso origina um documento muito longo, que para AS chega a ter 80 páginas mas para outros autores pode ser ainda maior[2].

A sinopse não deve ser apenas um documento frio e objetivo; tem de ser escrita de forma a que os destinatários a leiam, se divirtam e sejam conquistados pela estória. Para isso o autor tem de dar-lhe “cor” e infundir-lhe o seu estilo próprio, para prender os leitores desde as primeiras páginas.

Além das tramas e subtramas, este tipo de sinopse inclui também os perfis dos personagens da novela. Esses perfis estão já devem muito bem definidos, com as descrições das características de cada personagem, as suas manias, as formas de falar que os distinguem, etc.

Esta sinopse deve conter também uma lista de todos os cenários e locações que a novela vai usar, para a produção poder começar a prepará-los.

Ao escolher e definir esses espaços, o autor aceita “aprisionar-se” dentro de um número definido de cenários e locações onde os seus personagens terão de se movimentar até ao fim da novela. Quando passar à fase de escrita não poderá, pois, adicionar aleatoriamente novos espaços, porque isso tem influência em prazos e orçamentos.

A sinopse é um documento muito importante porque representa o compromisso entre o autor e a emissora quanto ao que se espera que a novela venha a ser. Por isso é fundamental que tudo fique muito claro e bem especificado, para que mais tarde não haja cobranças indevidas por parte da emissora, nem sejam colocadas limitações ao trabalho do autor.

Novela é melodrama

Para AS as novelas encaixam definitivamente no modelo dramático do melodrama. Não há como fugir a isso com sucesso.

A narrativa melodramática é conduzida por um herói ou heroína (o “mocinho” ou “mocinha”, na terminologia popular brasileira), que têm de ter um objetivo muito claro na vida e têm de cumprir esse objetivo para conseguir ser felizes. Essa é a trama principal da novela.

Tem também de haver um antagonista principal (o “vilão” ou “vilã”) que fará tudo para que o protagonista não alcance o seu objetivo. Como uma novela tem, no mínimo, 180 capítulos, é precisa muita imaginação para ir criando novas dificuldades e obstáculos ao protagonista, de forma a que não alcance o seu objetivo cedo demais. Sabendo sempre que, no final, tem de o alcançar.

Para isso, o autor tem de criar empecilhos e fazer com que a audiência torça para que aqueles empecilhos sejam sucessivamente superados pelos protagonistas.

Para AS a vilã pode fazer as piores coisas do mundo, porque é isso que a audiência espera dela. E até podemos usar o humor para tornar a sua maldade mais digerível, como ele fez com grande sucesso com a vilã Nazaré Tedesco, de Senhora do Destino.

A vilã Nazaré
Nazaré Tedesco, uma das memoráveis vilãs de Aguinaldo Silva.

Já a “mocinha” está presa por uma espécie de “cinto de castidade” ético, que a impede de fazer coisas más. Pode até errar uma vez por outra, mas deve perceber-se que isso foi um equívoco e não um resvalar intencional para o lado do mal.

Em relação a uma tendência mais atual que defende que todos os personagens devem ter um lado bom e um lado mau, e portanto não haverá uma fronteira tão delimitada entre “mocinho” e “vilão”, AS compreende a intenção mas considera-a um pouco ingénua. Para ele, novela é folhetim, é melodrama, e se um autor não quer respeitar os requisitos do formato deve ir escrever noutros formatos.

Ao contrário dos espectadores dos canais privados e de streaming, que podem escolher exatamente o conteúdo que querem ver em cada momento, uma novela é vista (no Brasil) por cerca de 60 milhões de espectadores em simultâneo.

Este grande público tem expectativas muito bem definidas em relação ao formato, entre elas uma separação clara entre o Bem e o Mal – e que no final o Bem triunfe. Um autor de novela pode fugir a isso, obviamente, mas deve saber que corre o risco de não conseguir agradar a essa imensa audiência e, como tal, fracassar nos objetivos da emissora.

A Equipa

Antes de começar a escrever a novela, o autor tem de escolher os seus colaboradores de escrita, ou “coautores”. Poucos autores de novela escrevem sozinhos, sem uma equipa a apoiá-los, por isso é muito importante selecionar os colaboradores certos.

A principal característica que AS procura nesses colaboradores (além, obviamente, da sua qualidade técnica e criatividade) é a capacidade de absorver o “tom” definido pelo autor para a novela e para os personagens.

AS escreve sempre sozinho os primeiros doze capítulos da novela, de forma a que tudo fique perfeitamente claro: as características, manias e voz dos personagens, o estilo das tramas, e o tom geral da obra.

Dessa forma os guionistas da equipa podem “incorporar” o espírito do autor quando chega a sua vez de escrever as cenas.

A Escaleta

“A escaleta é o resumo de tudo o que vai acontecer no capítulo, cena por cena. Você dá até o cabeçalho da cena: INT. CASA DE GRISELDA/SALA – DIA.” – Aguinaldo Silva

AS gosta de fazer as escaletas e faz questão de escrever todas nas suas novelas. As suas escaletas são sempre longas, chegando por vezes a ter 18 páginas para um capítulo de 40[3].

Nestas escaletas tudo fica muito bem definido, cena a cena: onde a cena decorre, quem participa, qual o conflito dramático. Por vezes AS inclui até sugestões de frases ou diálogos.

As cenas são depois divididas pelos diversos colaboradores, de acordo com as suas características e estilo de escrita. Mas AS gosta de ir diversificando essa distribuição, não dando sempre as mesmas tramas aos mesmos colaboradores. Dessa forma todos são obrigados a ter uma visão global da novela e ninguém se foca apenas numa trama ou núcleo específico.

Ao escrever uma escaleta AS está a organizar diversas sequências de acontecimentos num todo coerente. Para isso usa muito a experiência que adquiriu como editor de jornal, onde frequentemente tinha de combinar partes de diferentes repórteres para construir uma peça jornalística coesa.

Os Ganchos

Os “ganhos” são situações dramáticas que ficam inacabadas de forma a prender a atenção e conquistar a finalidade dos espectadores. São usados frequentemente no final dos capítulos.

Por exemplo, é muito normal começar um capítulo com uma cena que ficou em “suspense” do final do capítulo anterior. O truque é não resolver essa situação logo na cena inicial. Depois de reavivar o interesse do espectador podemos mudar para cenas de outras tramas, introduzindo novos elementos, antes de, finalmente, resolver o gancho.

Os ganchos são também usados antes dos intervalos comerciais. Para o autor, isso era mais fácil de fazer quando um capítulo de novela tinha apenas três intervalos comerciais. Hoje, algumas novelas de muito sucesso chegam a ter seis, o que torna muito difícil criar tantos ganchos num único capítulo de uma hora.

O segredo de usar eficazmente os ganchos, segundo AS, é planear tudo antecipadamente. Quando desenha o bloco de seis capítulos de uma semana, o autor começa por definir os finais de cada um. Dessa forma sabe não apenas como cada capítulo termina, mas também como começará o seguinte, o que facilita muito o seu trabalho.

Acima de tudo, o autor de novela não pode deixar tudo ao improviso, porque caso o faça quando chegar ao capítulo 80 já perdeu o controlo da trama, os espectadores já não entendem nada e a emissora vai achar que ele enlouqueceu.

“Nessa orgia toda que é o ato de escrever uma novela, o autor tem de botar sempre uma certa ordem.” – Aguinaldo Silva

O Capítulo

Com as cenas atribuídas, é a vez dos guionistas da equipa de escrita mostrarem o que valem, escrevendo as cenas que lhe foram distribuídas do guião/roteiro desse capítulo.

Para o conseguir terão de “incorporar” o autor, ou seja, escrever como ele o faria, respeitando o seu estilo, as características dos personagens e o tom da novela. Um guionista de novela será tão mais bem sucedido quanto mais facilidade tiver em se metamorfosear no autor com quem trabalha.

É também fundamental que cumpra integralmente o que ficou definido na escaleta. O maior erro que um colaborador pode fazer é achar que pode criar em cima da escaleta, e por vezes até acrescentar cenas.

Quando a escaleta está fechada, tem de ser respeitada. O colaborador até pode conseguir resolver a cena melhor do que está sugerido na escaleta (esse é o seu desafio) mas sempre dentro dos objetivos da mesma. Como AS explica, “se a cena termina com o personagem caindo num buraco, ele não pode fazer o personagem sair andando“.

Um colaborador, normalmente muito experiente, tem depois a responsabilidade de reunir as cenas escritas pelos diversos guionistas, combinando-as de acordo com o plano da escaleta para formar cada capítulo.

Página de guião de um capítulo da novela Fina Estampa.
Uma página de guião de novela da Rede Globo tem esta aparência.

Este documento volta então para as mãos de AS, que o lê e altera de acordo com a sua sensibilidade, procurando dar-lhe coesão e passar-lhe o seu estilo próprio.

Para escreverem os capítulos os roteiristas têm de acreditar no que estão a escrever, senão o processo não vai funcionar. São meses e meses das suas vidas dedicados aqueles personagens e estórias, e só essa convicção lhes permitirá chegar ao fim com sucesso.

Às vezes alguns colaboradores têm dificuldades com certos tipos de personagens e de tramas, e isso deve ser tido em conta na distribuição das cenas. AS dá como exemplo a sua própria falta de paciência para escrever cenas com personagens muito jovens, ou para as grandes cenas de amor.

Questionado quanto à dimensão das cenas, que atualmente parecem ser cada vez mais curtas – hoje raramente se escrevem cenas com mais de duas páginas – o autor considera que isso não deveria ser uma regra. Para AS, se a situação for bem montada e os personagens forem interessantes, ou seja, se a “magia” funcionar, as audiências têm paciência e até gosto pelas cenas longas. As pessoas só saem para ir ao frigorífico se a cena não as prender.

O perigo das cenas curtas e do ritmo frenético dos capítulos é a superficialidade, que infelizmente caracteriza muita da produção novelística contemporânea. Sem pausas, sem tempo para refletir, as pessoas não recordam as cenas. Nos escritórios de hoje ninguém pára o trabalho para lembrar e discutir “aquela cena de ontem”.

Para AS, uma das vantagens das novelas é que podem abordar todos os temas, e têm-no feito com grande sucesso há muitas décadas. A novela pode tratar de todos os assuntos, desde que os assuntos sejam tratados como deve ser.

Questionado sobre o motivo porque os diálogos das novelas parecem sofrer de um certo “didatismo”, AS explica que isso é essencial para a sua correta apreensão pelas audiências.

A novela é um formato longo, que se estende por muito tempo e tem muitas interrupções. Isso propicia a perda de muita informação pelo caminho, o que implica que a novela tenha de ser reiterativa. As informações têm de ir sendo repetidas ao longo do tempo, temos de estar sempre a recordar as coisas ao espectador: se isso for importante para a trama, temos de lhe dizer 10 vezes que x é cunhado de y.

Conclusão

Aguinaldo Silva e os seus dois Emmys. Deve ser bom ter esta decoração na sala…

Para Aguinaldo Silva, na falta de escolas o argumentista tem de aprender sozinho. Para esse efeito tem de ver tudo e ler tudo, o bom e o mau, da literatura, cinema e teatro. Só assim poderá evoluir como profissional, pois um guionista nunca “está terminado”; tem de estar sempre a crescer.

E como é que esse argumentista talentoso e disposto a evoluir entra no meio? Para essa questão, infelizmente, Aguinaldo Silva não tem resposta. O mercado das telenovelas é muito restrito e não há uma forma fácil de entrar nele. É uma questão de talento, persistência, busca de oportunidades e alguma sorte.

O único conselho que Aguinaldo Silva dá é que, se um roteirista tem a certeza de que é mesmo aquilo que quer fazer, nunca pode desistir – “deve viver tentando“.

Dessa forma, mesmo que não consigamos alcançar o seu objetivo, pelo menos dedica a vida a algo de que gosta.


O brinde de hoje

Fina Estampa é uma telenovela brasileira em 185 capítulos, exibida entre 2011 e 2012, no horário das 21:00, na Rede Globo. Foi escrita por Aguinaldo Silva, com a co-autoria de Maria Elisa Berredo, Nelson Nadotti, Patrícia Moretzsohn e Rui Vilhena, e a colaboração de Rodrigo Ribeiro e Maurício Gyboski. O guião/roteiro aqui apresentado corresponde ao capítulo 7.

Notas de Rodapé

  1. Nota: Aguinaldo Silva usa a palavra “personagem” como substantivo comum de género masculino, como eu também faço. Uma opção que já recebeu contestação de alguns leitores, mas que é gramaticalmente correta e muito usada.[]
  2. Esta sinopse longa é aquilo a que, neste site, normalmente, eu refiro como “tratamento” e que, mais tradicionalmente, era designado por “argumento”. Parece confuso, mas pode ler aqui uma explicação mais detalhada.[]
  3. Nota: o formato dos guiões da Rede Globo é mais compacto do que o dos guiões normais; a minha estimativa é que um guião de novela de 40 páginas seria de 50 e tantas se fosse escrito no formato mais comum.[]
Aguinaldo Silva: é assim que eu escrevo (parte 3)… e oferta de um capítulo.

A sua opinião é importante. Deixe-a aqui:

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.