Avançar para o conteúdo

O poder das palavras

    Um dos guiões que mais satisfação me deu ler, e mais me ensinou sobre o poder das palavras, foi The Princess Bride, de William Goldman. Tenho-o há cerca de 20 anos num livro de capa dura da Applause, com três outros guiões do autor.

    O romance original de 1973, também de Goldman, é igualmente fantástico, e o filme, realizado por Rob Reiner em 1987, tornou-se uma obra de culto, que gerações de fãs continuam a adorar.

    Eu gosto tanto deles – livro, guião e filme – que já lhes dediquei um artigo da série Grandes Diálogos, sobre uma das suas cenas mais memoráveis, o duelo final entre Inigo Montoya e o Conde.

    Inigo Montoya
    Esta cena é tão boa, tão boa, tão boa…

    Mas sabe o que está por trás do fascínio que este filme continua a despertar em tanta gente?

    O poder das palavras.

    Um poder que Goldman era exímio a usar e manipular, para nos usar e manipular depois enquanto espectadores.

    A prova disso está na versão “filme caseiro” de The Princess Bride, um projeto louco e fascinante, de cariz social.

    Inúmeros atores e atrizes de primeira linha doaram o seu tempo à World Central Kitchen para criar uma versão artesanal da obra, filmada nas suas casas e jardins. Vai encontrar nomes como Hugh Jackman, Charlize Theron, Adam Sandler, Penelope Cruz ou Javier Bardem, entre muitos, muitos outros.

    E estes intérpretes famosos não se importaram de filmar em condições mínimas, com cenários e adereços improvisados (as espadas podem ser, à vez, espanadores de pó, chapéus de chuva, light sabers ou colheres…).

    Os atores e atrizes que interpretam cada personagem mudam de cena para cena, trocam de sexo, variam de idade, interpretam com estilos diferentes; os bigodes são pintados e os trajes imaginativos (John Malkovich, no papel de padre, usa duas máscaras cirúrgicas como barrete eclesiástico); não há iluminação cuidada, nem direção de arte, e a edição é uma amálgama; cães, vassouras ou carros de golfe fazem de cavalos; desenhos em cartão substituem outros actores, e a Máquina de Tortura do Poço do Desespero é… um jacuzzi.

    O realizador Jason Reitman criou com Legos algumas sequências adicionais, colou os pedaços recebidos daqui e dali, e deu a forma final ao filme. 1

    Mas uma coisa, e apenas uma coisa, unifica todo o projeto e dá força, e consistência, e emoção, e magia ao projeto.

    O poder das palavras.

    Se alguém ainda tem dúvidas da importância do guião na feitura de um filme, este pode ser o argumento definitivo.

    Veja o vídeo no YouTube

    Leia aqui o guião original (em inglês)

    Leia a cena do duelo (traduzida)

    Via: Kottke

    Notas de Rodapé

    1. que foi exibido em capítulos na malograda plataforma Quibi e está agora disponível em versão integral no YouTube

    A sua opinião é importante. Deixe-a aqui:

    Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.