Dez dicas de escrita do enorme Stephen King

Stephen King é um dos autores mais populares e bem sucedidos do mundo, com obras essencialmente no domínio do fantástico, terror e policial. Muitas dessas obras já foram adaptadas ao cinema e televisão, incluindo um dos meus filmes favoritos de sempre: Os Condenados de Shawshank.

Escreveu também, por exemplo, Carrie, It, The Shinning, Stand By Me, Misery, The Green Mile, The Mist e The Stand. E estes são apenas os meus favoritos; a lista completa é muito mais extensa.

O seu livro On Writing, misto de autobiografia e compêndio de escrita criativa, é leitura obrigatória para todos os autores, sejam de ficção literária, argumentistas ou qualquer outro tipo.

Não é pois de estranhar que, ao longo dos anos, tenha acumulado intervenções gravadas, em diferentes situações, das quais se podem extrair conselhos aos seus colegas escritores.

Dez dessas dicas de escrita fora reunidas pelo pessoal do canal de YouTube Outstanding Screenplays num pequeno vídeo.

Usem um prego maior

Quando começou a escrever, ainda adolescente, Stephen King enviava estórias curtas para diferentes revistas, na esperança de ser publicado.

Em vez da publicação, durante muito tempo recebia apenas as tradicionais cartas de rejeição, que ele espetava num prego na parede do quarto. Ao fim de algum tempo (antes dos seus dezassete anos…), as rejeições eram tantas que o prego caiu.

Stephen não desistiu; em vez disso arranjou um prego maior e continuou a coleccionar cartas de rejeição até receber, finalmente, a sua primeira carta de aceitação.

A retirar: não desistir nunca, mesmo que o reconhecimento demore a vir.

Escrevam seis páginas por dia

Numa conversa com outro monstro da literatura popular, George R. R. Martin, famoso por A Guerra dos Tronos, Stephen King explica a razão da sua produtividade: nos períodos em que está a escrever, aponta para uma meta de seis páginas por dia.

Esse objectivo, que ele atinge normalmente em 3 ou 4 horas intensas de escrita, permite-lhe, teoricamente, ter uma primeira versão de um livro normal em 2 meses de trabalho.

Claro que nem todos os dias atingirá essa meta, e depois dela vem todo o importantíssimo trabalho da reescrita e revisão, mas com esse objectivo em mente é possível alcançar os seus níveis de produtividade literária, com mais de um livro por ano, em média.

A retirar: estabelecer metas de escrita e cumpri-las.

Vão aonde as ideias vos levarem

Stephen King é o exemplo definitivo do autor que não planeia as suas estórias, aquele tipo de escritor que eu designo por “jardineiro”.

É até muito crítico dos autores que planeiam os seus enredos detalhadamente antes de escrever, considerando o enredo o último refúgio dos maus escritores.

Pelo seu lado, prefere focar-se nos personagens e nas situações em que se envolvem, e descobrir onde é que essa combinação conduz organicamente a estória.

Eu sou incapaz de escrever dessa forma (o que, no seu ponto de vista, provavelmente me inclui entre os maus autores) mas concordo em absoluto num aspeto. O fundamental é explorar honesta e profundamente as consequências de colocar personagens interessantes em situações complicadas.

A diferença é que alguns autores, como a maior parte dos guionistas, o fazem ainda na fase de planeamento das estórias, e outros, como Stephen King, o fazem diretamente na escrita.

A retirar: colocar os nossos personagens em situações especiais e explorar com honestidade as consequências dessa combinação.

As boas ideias ficam connosco

Stephen King tem muitas opiniões que vão diretamente contra as minhas. Por exemplo, ele acha, ao contrário de mim, que um bloco de notas “é apenas uma forma de imortalizar as más ideias.”

Segundo o seu raciocínio, há uma espécie de “darwinismo” intelectual que vai eliminando da nossa memória as ideias menores, resultando na sobrevivência apenas das mais interessantes e prometedoras.

Dá o exemplo da sua obra Under the Dome, baseada numa ideia que teve aos vinte e poucos anos, mas que só escreveu várias décadas depois. Por ser uma boa ideia, sobreviveu todo esse tempo sem precisar da “muleta” de um caderno de notas.

Eu também concordo com a base dessa teoria, que já vi acontecer muitas vezes na prática. Certas ideias ficam na nossa cabeça durante anos, até não aguentarmos mais e termos de as passar ao papel.

Mas ao contrário de Stephen King, eu tenho medo que algumas boas ideias, numa fase prematura do seu desenvolvimento, ainda não tenham o poder de sobreviver ao esquecimento. Um bloco de notas, quanto a mim, é um auxiliar indispensável nesses momentos iniciais da gestação.

A retirar: dar tempo às ideias para descobrir quais as que sobrevivem ao esquecimento e exigem ser escritas.

Copiaem outros autores até desenvolverem o vosso próprio estilo

Stephen King acredita que se pode aprender a escrever, mas não tem a certeza de que a escrita possa ser ensinada.

Para ele, é mais uma questão de auto-aprendizagem. Um processo que, inicialmente, passa por copiar o estilo dos autores que mais apreciamos até que , pouco a pouco, o nosso estilo próprio se começa a desenvolver e manifestar.

Stephen, como quase todos os grandes escritores, é um leitor voraz que defende que “se não tens tempo para ler, não tens tempo (ou ferramentas) para escrever.”. É preciso ler muito para absorver, consciente e subconscientemente, o ofício dos que estão à nossa frente.

Neste aspecto concordo com ele sem reservas.

E, no caso dos guionistas, recordo que isso tem mais uma implicação: não basta ler literatura em geral, é preciso ler muitos e bons guiões, para ganhar a compreensão desta forma específica de arte.

A retirar: ler muito, ler muitos guiões, e não ter medo de copiar o estilo (não as ideias) de outros autores até amadurecer um estilo próprio.

Mantenham uma rotina

Stephen King acredita que escrever é uma forma de auto-hipnose, um estado que ele consegue através da adesão a uma rotina diária.

No seu caso, a rotina passa por levantar cedo, tomar o pequeno-almoço com a família, ver um pouco de televisão e, finalmente, fechar-se no escritório para escrever durante três horas e meia (as tais seis páginas).

Outras pessoas terão outras rotinas. Há pessoas que são mais produtivas de noite, outras têm compromissos que as limitam em certas alturas do dia, outras ainda têm menos tempo disponível para escrever.

O importante, em todos os casos, é criar as condições ideais para que a escrita se desenvolva da forma mais eficaz possível dentro das nossas condições. Uma rotina automatiza uma série de decisões, estabelecendo um pano de fundo ideal para o desenvolvimento da nossa atividade.

A retirar: descobrir a melhor rotina para a nossa situação e características, e respeitá-la escrupulosamente.

Comecem com estórias curtas e desenvolvam a partir daí

Neste caso, parece-me que considerar isto como uma dica é um exagero dos autores do vídeo. A afirmação de Stephen King é mais uma constatação prática.

O autor refere que começou por escrever estórias curtas e, só mais tarde, passou a escrever obras mais longas.

Alguns dos seus contos, no entanto, mostraram ter substância suficiente para ser desenvolvidos. O seu livro Misery, por exemplo, começou por ser um conto que, a certa altura, cresceu até se tornar um romance extraordinário.

No caso dos guionistas, escrever curtas-metragens pode ser uma forma muito interessante de ganhar prática na escrita audiovisual.

Um guião de longa-metragem, com as suas 100/120 páginas, pode ser um empreendimento assustador para um guionista iniciante. Já as 10/15 páginas de uma curta são mais fáceis de enfrentar.

Nem todas as curtas têm um núcleo suficientemente rico para crescer para uma longa. Algumas – se calhar, as melhores – são muito específicas e focadas numa situação limitada.

Mas pode acontecer que, depois de escrevermos uma curta-metragem, os personagens e as situações sejam tão estimulantes que nos desafiem a explorações adicionais.

Nesse caso, sem pensarmos muito nisso, e com a confiança de já ter terminado a curta, podemos vir a dar connosco a escrever naturalmente uma longa-metragem. Se isso acontecer, é aproveitar.

A retirar: é melhor escrever uma curta-metragem do que não escrever nada. E se a curta-metragem o pedir, é fácil passar dela para a longa-metragem.

Aprendam a escrever para diferentes meios

Esta é importante. Cada meio tem as suas características próprias. O que funciona num determinado meio pode ser completamente ineficaz noutro meio.

Escrever literatura é uma coisa; teatro é outra; banda desenhada, outra ainda. E, obviamente, escrever para cinema e audiovisual exige soluções técnicas e artísticas muito específicas e diferentes de todas as anteriores.

Stephen King refere o seu caso pessoal. Quando já tinha escrito muitos contos e alguns romances, decidiu aprender a escrever para cinema. Comprou um manual de guião e aplicou o que aí aprendeu na adaptação, feita para si mesmo, de um conto de Ray Bradbury.

Mais tarde, usou essa prática para escrever a adaptação para cinema do seu terceiro romance, The Shinning. Essa adaptação não foi aproveitada por Stanley Kubrick quando fez um filme baseado na obra, mas Stephen King aceitou isso sem problemas.

Adaptar um romance para guião é compreender, antes de tudo o mais, que é necessário transcrever a base da estória – os seus personagens, situações, estilo – para os códigos e soluções mais adequados ao outro meio.

A retirar: só através da prática se pode aprender o que funciona e não funciona na escrita para um determinado meio de comunicação.

Procurem ideias que vos dêem satisfação durante um período longo

Esta é uma ideia que eu destaco sempre nos meus workshops de escrita: para escrever um guião vamos passar muitas dezenas, talvez centenas, de horas sentados à sua frente, a desenvolver uma semente de uma ideia.

Se essa ideia não nos apaixonar de alguma forma, as horas vão rapidamente tornar-se numa tortura lenta e prolongada. Sempre que aceitei trabalhos nessas condições, arrependi-me amargamente.

Stephen King destaca que o seu critério principal para embarcar num projeto longo é precisamente sentir entusiasmo com aqueles personagens e situações. Nunca lhe acontece sentir alívio no fim de um projeto; pelo contrário, custa-lhe sempre dizer adeus aqueles companheiros de viagem.

Pense nisso: vai querer sentar-se três ou quatro horas por dia a escrever um guião de que não gosta?

A retirar: escrever apenas guiões que nos apaixonem.

Mergulhem a fundo na escrita

Esta última dica, ou constatação, é uma consequência natural das anteriores.

Quando temos as nossas rotinas em marcha; quando dominamos perfeitamente as nossas ferramentas; quando estamos apaixonados com a ideia em que estamos a trabalhar, a escrita flui e torna-se quase viciante.

Entrar nesta condição, que muitas vezes se descreve como “flow”, ou fluxo, é uma experiência muito prazerosa.

Como Stephen King descreve, com grande entusiasmo, o mundo exterior, com todas as suas limitações e constrangimentos, desvanece-se, substituido por um foco absoluto na escrita. As páginas sucedem-se, sem resistência, e as ideias atropelam-se, sem esforço.

É como se tivéssemos entregado o volante a outro condutor e ficado apenas a apreciar a paisagem e a desfrutar da viagem.

Esta experiência, de certa forma semelhante à meditação, pode ser quase transcendente. Nem sempre é possível atingir este estado – na realidade, é relativamente raro – mas deve ser o objetivo a perseguir.

A retirar: criar as condições necessárias para entrar num estado de fluxo de escrita.

Conclusão

Mesmo quando não concordamos com algumas das suas ideias, temos sempre a aprender com as dicas dos que vieram antes e são melhores do que nós.

O canal de YouTube de onde retirei este vídeo, Outstanding Screenplays, é uma fantástica fonte de inspiração e conselhos, útil para guionistas e para quem se dedique a qualquer trabalho criativo.

Explore-o com cautela: é muito fácil perder um dia inteiro nele.

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.