O guião de uma página

Apoio-me sempre em vários tipos de documentos para conseguir chegar ao fim da escrita de um guião. Neste artigo descrevo uma dessas ferramentas, a que chamei, por falta de melhor designação, o guião de uma página.

Introdução

Já escrevi antes sobre storylines, escaletas, sinopses, tratamentos e outros tipos de documentos que os guionistas usam antes, durante ou depois da escrita do guião.

Os autores desenvolvem alguns desses documentos antes da escrita, usando-os para orientação; escrevem outros depois, como documentos de suporte e apresentação dos seus projetos.

Escritores diferentes usam estes documentos de forma diferente, conforme sejam mais jardineiros ou paisagistas.

Alguns guionistas entram diretamente na escrita do guião, apenas com algumas ideias que têm na cabeça. Chamei a estes os jardineiros. Outros guionistas – os paisagistas – gostam de preparar a escrita detalhadamente, através de etapas e documentos preparatórios.

As minhas ferramentas

Eu sou mais paisagista do que jardineiro. Como expliquei no artigo mencionado, gosto de ter uma visão clara do rumo que a estória vai seguir antes de começar a escrevê-la.

Não só gosto, como na maior parte das vezes sou a isso obrigado, nos termos dos contratos de encomenda dos guiões. A maior parte dos produtores querem ver uma sinopse, um tratamento ou até uma escaleta detalhada, antes de se comprometerem com a encomenda do guião final.

No entanto, mesmo quando estou a escrever para mim próprio, sinto necessidade de planificar muito bem a estória antes de meter as mãos ao guião.

Para esse efeito, uso essencialmente duas ferramentas: a escaleta e o tratamento. No meu processo de trabalho, as storylines e as sinopses são normalmente textos que escrevo apenas depois do guião terminado, ou se forem necessários para o seu financiamento. Não têm grande papel operacional.

Mas por vezes uso outra ferramenta antes da escrita: uma espécie de cábula a que chamo o guião de uma página.

O guião de uma página

O guião de uma página, como o nome indica, é um resumo dos principais momentos que irão compor um guião, resumidos numa única página. É um documento com um nível de detalhe intermédio, situado entre uma storyline e uma escaleta.

Normalmente, inclui os seguintes pontos, escritos com apenas o detalhe suficiente para o próprio autor os recordar:

  1. O protagonista no mundo inicial – um resumo da situação em que encontramos o personagem principal no início da estória.
  2. O inciting incident – o evento ou sequência de eventos que introduz um desequilíbrio nessa situação e coloca uma questão dramática principal.
  3. O resto do 1º ato – um resumo do que acontece ainda antes do protagonista se comprometer com a resolução do problema colocado.
  4. O 1º ponto de viragem – o evento ou sequência que marca o início da “viagem” do protagonista e assinala a entrada no 2º Ato.
  5. Destaques do 2º Ato A – um resumo das principais dificuldades, obstáculos e surpresas que o protagonista vai enfrentar na primeira metade do 2º Ato.
  6. O ponto intermédio – o evento ou sequência de eventos que marcam o meio da estória e implicam, geralmente, uma mudança significativa no rumo do enredo ou no arco emocional do protagonista.
  7. Destaques do 2º Ato B – um resumo das principais dificuldades, obstáculos e surpresas que o protagonista vai enfrentar na segunda parte do 2º Ato.
  8. A crise final do 2º Ato – o evento, dilema ou crise emocional que marca o final do 2º Ato e muitas vezes redefine a questão dramática principal.
  9. O 2º ponto de viragem – o evento ou sequência que marca o começo do fim da “viagem” do protagonista e assinala a entrada no 3º Ato
  10. Destaques do 3º Ato – um resumo dos principais eventos que marcam o 3º Ato e conduzem ao confronto final.
  11. O clímax/confronto final – o evento ou sequência de eventos em que o protagonista tem de se confrontar com a sua maior dificuldade ou obstáculo e vai definir se ele termina vencedor ou derrotado (ou vencedor mas derrotado, ou vice-versa).
  12. O dénouement/mundo final do protagonista – uma visão rápida do novo equilíbrio em que se encontra o mundo do protagonista depois de toda esta sequência de acontecimentos que compõe a nossa estória.

Se formos sucintos na escrita, esta dúzia de pontos cabe numa única página A4 ou numa página dupla de um caderno de notas. Dessa forma, podemos consultá-lo rapidamente a qualquer momento, sem necessidade de revisitar a escaleta mais detalhada ou um tratamento de 20 páginas.

É evidente que se a nossa estória tiver uma estrutura significativamente diferente do modelo clássico de três atos (o “paradigma”), que está reflectido nos doze pontos acima indicados, o guião de uma página deverá refletir as diferenças, adaptando-se ao modelo estrutural e às necessidades específicas dessa estória.

Quem pode beneficiar com o uso do guião de uma página?

Curiosamente, o guião de uma página pode ser útil tanto para os autores paisagistas como para os jardineiros.

O Cocas é paisagista ou jardineiro?

Para os primeiros, como referi, este documento funciona como uma cábula da estrutura do guião, assinalando as suas pedras basilares.

Mas pode também ser útil para os segundos, recordando-lhes os principais marcos do percurso que imaginaram, sem os comprometer demasiado com soluções criativas.

Ao limitar ao mínimo o nível de detalhe, o guião de uma página não restringe a liberdade que estes escritores gostam de sentir no momento da escrita, mas dá-lhes ao mesmo tempo algum tipo de orientação global.

Em ambos os casos, o guião de uma página também pode ser útil para ajudar a contar resumidamente a estória, sem deixar de fora nada de importante, o que pode ser útil para tentar vendê-la.

Por exemplo, se eu quisesse apresentar um guião meu num dos pitches organizados pelo Festival Guiões, começaria por recorrer ao guião de uma página para planear essa apresentação.

É o mesmo que um one-pager?

Não devemos confundir este guião de uma página com o documento vulgarmente conhecido por one-pager.

Enquanto o primeiro é uma ferramenta pessoal destinada a ajudar-nos no processo de escrita, funcionando como um resumo da escaleta, o segundo é um instrumento de marketing e vendas, destinado a ser entregue a terceiros.

One-pager é um termo que tem origem no mundo dos negócios, onde se refere a um resumo de uma página com as principais características, motivos de interesse, vantagens e públicos-alvo de um produto, serviço ou projeto. O seu objetivo é refrescar a memória, ou despertar o interesse, para uma apresentação mais desenvolvida do seu objeto.

Aplicado ao nosso setor, o one-pager é um resumo das principais características e motivos de interesse de um projeto audiovisual – filme, minissérie, série longa, etc – incluindo os seus principais personagens, linhas de trama, género e tom, e a quem se destina.

Está nos meus planos escrever uma série de artigos sobre o one-pager e outras ferramentas de apresentação de projectos.

Conclusão

Cada autor tem o seu processo próprio de escrita e usa as ferramentas e métodos mais adequados às suas circunstâncias e personalidade.

A minha missão, neste tipo de artigos, não é mostrar uma forma universal como as coisas “devem ser feitas“, que não existe, mas sim apresentar opções, alternativas, e modos de enfrentar os desafios da criação que possam ajudar, se não todos, pelo menos alguns leitores.

O guião de uma página é mais uma dessas ferramentas. Não a uso sempre, mas uso-a com suficiente frequência para acreditar que também poderá ser útil a outros autores. Será o seu caso? Deixe a sua opinião nos comentários.

Fotografia: Kat Stokes no Unsplash

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.