O que deve entrar na capa de um guião

Todos os guiões começam com uma folha de rosto, onde são apresentadas as informações essenciais sobre a obra. Ao olhar para essa capa, o leitor do guião – por exemplo, um produtor ou um realizador – formula imediatamente uma primeira impressão sobre o profissionalismo do autor.

Convém pois que a capa esteja corretamente preenchida e formatada, de acordo com as convenções em uso.

A maioria dos aplicativos de escrita de guião, como o Final Draft, o Scrivener ou o Highland, tratam automaticamente do formato da página de rosto, mas não garantem a correcção do seu conteúdo. Por isso, neste artigo, vou abordar esses dois aspectos, que são igualmente importantes.

Já publiquei, em tempos, um outro artigo com uma infografia sobre a “anatomia de um guião“. Além de outros esclarecimentos sobre o formato correto de um guião, essa infografia incluía uma folha de rosto.

Também já escrevi sobre a forma de encadernar um guião, que é diferente em Portugal e nos EUA.

Neste artigo vamos ver com mais detalhe o que deve entrar na capa de um guião, e qual o formato correto para apresentar essa informação.

Mas antes de entrarmos nesse tema, devo fazer uma chamada de atenção importante: o que vou explicar de seguida é um conjunto de indicações que garantem que a capa que vai fazer será reconhecida como profissional e correta.

Uma capa, ou folha de rosto, de um guião típico (fictício).

No entanto nada nesta indústria é imutável como a Matemática ou as leis da Física. Vai encontrar por todo o lado muitos exemplos de guiões com capas que seguem outros modelos, ou a inspiração dos seus autores.

A escolha, em última instância, é sua – desde que esteja consciente dos riscos que vêm com a fuga às normas mais consensuais.

Os elementos da capa

Numa folha de rosto de um guião (roteiro, no Brasil) devem entrar obrigatoriamente três elementos:

  1. O título da obra
  2. Os créditos dos autores
  3. Contatos

Opcionalmente, outros elementos, como:

  • Data
  • Versão
  • Registo legal

A minha recomendação é que, a não ser que haja uma boa razão para isso, nos devemos limitar aos três elementos obrigatórios.

Na capa não deve entrar mais nenhum tipo de informação. Listas de personagens ou de locais, índices de cenas, epígrafes, dedicatórias, etc, se entrarem no guião (o que é desde logo duvidoso) nunca devem ser colocadas aqui.

O mesmo para imagens; pode ser tentador incluir uma fotografia ou ilustração na capa, mas isto deve ser muito bem ponderado.

Se quisermos usar uma imagem especial e significativa, devemos reservá-la para outros documentos, como a “Bíblia” de uma série de tv, ou uma Nota de Intenções. Nunca na capa do guião.

Formato

A folha de rosto, ou capa, tem as mesmas margens do restante guião: 2,5 cm nas margens superior, direita e inferior; e 3,75 cm na margem esquerda.

As margens a respeitar na capa

A margem esquerda é um pouco maior para acomodar os diversos métodos de encadernação, como tachas, argolas ou colagem.

A fonte tipográfica a utilizar é também a mesma que se usa em todo o restante guião: a ubíqua Courier corpo 12.

O título

O título do guião deve entrar a cerca de 10 cm do topo da página e deve ser centrado entre as margens laterais, na área útil da página.

Pode ser escrito em maiúsculas ou minúsculas, em normal ou negrito, rodeado de aspas ou sublinhado. Há aqui alguma margem de variação para o gosto pessoal.

Podemos até, se nos sentirmos muito confiantes, usar uma fonte diferente da Courier e um corpo ligeiramente maior. Provavelmente ninguém se vai sentir ofendido por isso, se tudo o resto estiver impecável.

O que não recomendo é combinar tudo: Curlz, corpo 24, com sombra e em roxo, já é provavelmente demais.

O título só é complicado porque escolher um título definitivo para qualquer obra É SEMPRE DIFÍCIL.

É muito possível que durante toda a escrita do seu guião tenha um título provisório, enquanto vai ocupando os tempos livres a fazer listas de nomes possíveis.

No meu livro “Como Escrever Um Argumento de Cinema” tenho um pequeno capítulo sobre a escolha dos títulos. Se tiver curiosidade, encontra os links para o comprar na Amazon na coluna da direita.

Se já escolheu o título do seu guião, escreva-o no local certo com a formatação adequada. E já está!

Os créditos

Já nos créditos há pouca margem de manobra: tudo em Courier, corpo 12, centrado na página, caixa alta e baixa, separados por dois parágrafos entre cada linha.

Se tivermos um segundo bloco de créditos podemos separá-lo do primeiro com 3 ou 4 parágrafos.

Há vários tipos de créditos: dos autores do guião; de outros tipos de contribuidores; e dos autores de obras que possam estar na origem do guião.

Vejamos as várias opções em cada caso.

Os autores do guião

Se você for o único autor da obra, utilize uma de duas opções: “Escrito por” ou, simplesmente, “de” ou “por”, seguidas, dois parágrafos abaixo, pelo seu nome.

Esta é a situação mais comum quando estamos a escrever guiões especulativos, ou seja, por iniciativa nossa. Também é isso que acontece se estivermos a escrever por encomenda, a partir do zero.

Se tiver escrito o guião em parceria com outro(s) guionista(s), então os nomes de cada um devem ser separados pelo símbolo “&” (o chamado “e comercial”, ou “ampersand”, em inglês).

Se estiver a escrever por encomenda de um produtor, isto deve ter sido garantido no seu contrato de escrita, e acertado com eventuais co-autores.

Outros colaboradores

Por outro lado, se estiver a escrever com base em guiões ou tratamentos pré-existentes, de que aproveitou elementos, deve usar uma convenção diferente: “Guião de” seguido do seu nome dois parágrafos abaixo, seguido por sua vez dos créditos do(s) autor(es) anterior(es).

Estes créditos, normalmente, serão algo como “Estória de”, seguido pelo seu nome e o nome do(s) autor(es) anterior(es), separados pelo “&” se trabalharam em conjunto, ou pela letra “e”, se trabalharam separadamente.

Isto quer dizer que esta versão do guião é de sua autoria, mas a estória que está a ser contada reune elementos criados por si e por vários autores, em vários momentos.

Pode haver ainda outros tipos de créditos. Por exemplo:

  • Ideia original de – quando alguém criou o conceito original, mas não esteve envolvido na escrita de sinopses, tratamentos ou do guião.
  • Diálogos adicionais por – quando um outro argumentista foi trazido ao projecto apenas para escrever alguns diálogos.
  • Letras das canções por – quando um autor musical é adicionado para escrever as letras de temas musicais que entram no guião (por exemplo, num musical).

Alguns destes créditos podem ser polémicos, como o de “Ideia original”, ou difíceis de atribuir, quando diversos autores reclamam diferentes tipos de autoria.

Em mercados mais desenvolvidos, quando surgem conflitos em relação à atribuição dos créditos, cabe às associações de guionistas nomear comissões de arbitragem para tomar decisões independentes sobre quem tem direito a que crédito.

Isso ainda não é a norma em Portugal; no Brasil não sei, mas talvez um leitor mais esclarecido possa deixar essa informação nos comentários.

Obras prévias

Muitas vezes um guião é adaptado de uma obra prévia: um conto ou romance, uma peça de teatro, uma banda desenhada, um filme antigo, uma reportagem ou livro de investigação, ou até um jogo de vídeo.

Quando isso acontece, é norma incluir essa referência a seguir aos créditos, separada deles por 3 ou 4 parágrafos.

Isso pode assumir várias formas, como, por exemplo:

  • “Baseado em”, seguido pelo nome da obra prévia e dos seus autores.
  • “A partir de”, idem.
  • “Inspirado em”, idem.
  • “Inspirado em factos reais”
  • Etc.

Outro exemplo: em tempos escrevi um guião para uma longa-metragem adaptada de um disco seminal da música popular portuguesa. Nesse guião, os créditos eram:

INFORMAÇÕES OPCIONAIS

Como vimos no início deste artigo, podemos incluir alguns tipos de informações adicionais, como a data do guião; o número de versão; ou um registo legal.

Se incluirmos este tipo de informações opcionais, aplica-se o mesmo formato que nos créditos: Courier, corpo 12, centrado, caixa alta e baixa, separados por dois parágrafos.

Informação a mais

A minha recomendação, contudo, é não o fazer, e passo a explicar porquê.

Em primeiro lugar, esta informação enche a página e distrai do que é o mais importante: o que é, quem escreveu e como o posso contactar.

Mas a razão principal é que esta informação adicional não acrescenta nada de realmente importante e pode até ser prejudicial para a percepção da obra.

Por exemplo, se eu receber para avaliação um guião cuja capa me indica ser de 1997, vou levantar, de imediato, uma série de questões: por onde é que esse guião andou perdido durante todos estes anos? Porque é que me está a ser apresentado agora? Quantas pessoas o terão lido e recusado durante este tempo?

Nada disto é positivo para o guião. O mesmo se passa com o número da versão. Que vantagem tenho em dizer que esta é a 15ª versão do guião, ou a segunda? É apenas ruído que estou a acrescentar, sem ganhar nada em troca.

Finalmente, embora eu recomende que qualquer guião seja registado antes de o enviar a concursos ou produtoras, indicar isso logo na capa pode parecer um pouquinho paranóico e desrespeitoso para os leitores. É como se lhes estivéssemos a fazer um aviso: “Não te atrevas a copiar isto, ou o braço pesado da lei cairá sobre ti”.

Contactos

No fundo da página, encostado à esquerda ou direita, devemos indicar a forma de nos contactarem. Normalmente basta um email, mas podemos querer também colocar um número de telefone ou, se for relevante, o endereço do nosso site.

As linhas de contatos devem ser também escritas em Courier 12. Devem ser encostadas à margem inferior mas, em vez de centradas, devem ser alinhadas à esquerda ou à direita.

Se houver mais do que uma linha de contactos (por exemplo, email e telefone) devem ser separadas apenas por um parágrafo.

Se tivermos um agente, o que é raro em Portugal, podemos também incluir o seu nome e contactos.

Esta secção é indispensável. Não adianta atrair a atenção de um produtor, realizador ou ator pela qualidade do nosso guião, e depois estes interessados não saberem como nos contactar.

Numeração

A página de rosto de um guião não deve ser numerada, nem entrar nas contas da numeração do guião. Quando dizemos que um guião tem, por exemplo, 100 páginas, são páginas úteis, de texto, sem a capa.

Os programas especializados de escrita de guião tratam da numeração automaticamente.

Se, por masoquismo seu, ou sadismo de quem lhe encomenda o trabalho, usa outro processador de texto, como o Word ou o Pages, a forma de conseguir isto é criando Secções separadas para a capa e para o corpo do guião, com numerações independentes.

Conclusão

Há uma frase um pouco batida, mas não menos verdadeira por causa disso, de que gosto muito: não há uma segunda oportunidade para criar uma boa primeira impressão.

E a primeira impressão sobre um guião é causada pela sua capa.

Se tiver um bom título, com créditos compreensíveis e contactos claros, tudo corretamente apresentado segundo as convenções da indústria (e sem erros ortográficos), a primeira impressão será boa.

O resto depende da qualidade do guião, mas isso já é outra conversa.

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.