A importância da primeira página

A página inicial de um guião constitui a primeira oportunidade para conquistar a atenção dos leitores. Deve pois merecer a nossa melhor atenção, para garantir que aproveitamos todo o potencial da estória logo desde o seu arranque.

Já escrevi sobre as primeiras páginas de um guião num artigo do curso. Destaquei aí que os objetivos do autor no 1º ato (o início de uma estória, dedicado à apresentação do problema dramático) pode resumir-se em cinco pontos:

  • Apresentar o mundo inicial da nossa estória;
  • Apresentar o seu protagonista, ou protagonistas;
  • Introduzir a questão dramática inicial;
  • Introduzir alguns outros personagens complementares e tramas secundárias;
  • E, finalmente, definir aquilo que eu designo normalmente pelo ADN da estória: o seu género, tom, tema e estilo.

Alguns destes objectivos podem começar a ser alcançados logo na primeira página, por isso não devemos perder tempo.

Entrar tarde, Sair CEDO

Uma das regras mais consensuais da escrita audiovisual é o “Entrar tarde, sair cedo”, que nos aconselha a não perder muito tempo na introdução das cenas e a sair delas logo que o seu objetivo dramático seja alcançado.

Esta regra não se aplica apenas às cenas individuais, mas também ao guião como um todo.

Devemos começar a nossa estória o mais perto possível do início da ação dramática relevante. Normalmente, isso significa começar muito perto do gatilho da estória, o inciting incident, ou até mesmo entrar in medias res, ou seja, com a ação já a decorrer.

Vejamos alguns exemplos, retirados dos argumentos de sete filmes candidatos aos Óscares de argumento deste ano, que estão disponíveis para baixar na net e estudar com atenção.

Note-se que os exemplos são retirados dos guiões, e podem não coincidir exatamente com o início dos filmes. Como já foi aqui referido, um filme é sempre escrito três vezes: no papel, na produção, e na montagem.

Buddy, o pequeno herói de Belfast

ALGUNS Exemplos

Belfast – Escrito por Kenneth Branagh

Na primeira página deste simpático e tocante guião, escrito pelo próprio realizador com base nas suas memórias de infância, começamos na cidade de Belfast, nos nossos dias, mas damos imediatamente um salto no tempo, para 1969.

Descobrimos aí o mundo inicial do filme, o da classe trabalhadora da Irlanda do Norte, e encontramos a mãe do protagonista Buddy. Este só é apresentado na página seguinte, mas o seu nome é gritado pela mãe ainda nesta primeira página, sem mais demoras.

Don’t look up – Guião de Adam McKay Estória de Adam McKay & David Sirota

Esta comédia negra e corrosiva começa a 100 à hora. Na primeira página conhecemos logo a protagonista, Kate, uma estudante avançada de astronomia, e o mundo especial em que ela se encontra: um telescópio numa localização remota.

No fim desta primeira página há ainda tempo para introduzir um primeiro gatilho da estória: Kate descobre o cometa que irá ser o motivo central de conflito ao longo de toda a estória. Uma vez mais, entramos logo no início da ação dramática.

King Richard – Escrito por Zach Baylin

O guião começa com uma introdução ao mundo a que o protagonista, Richard, quer pertencer. Um mundo onde jogar ténis é normal, povoado por pessoas ricas e bem sucedidas.

Conhecemos também o próprio protagonista, pelo menos o suficiente para perceber que ele ainda não faz parte desse mundo. Apesar de estar vestido com um equipamento de ténis, Richard está a receber como donativo um saco cheio de bolas usadas, que foram descartadas pelos tenistas mais afluentes mas para ele ainda são úteis. É um dos temas do filme, assim apresentado de forma exemplar.

Ruby, a protagonista de CODA

CODA – Guião de Siân Heder

CODA é a designação usada em inglês para referir os filhos de pais surdos. O guião deste emocionante filme começa com a apresentação do mundo em que a estória se desenrola, o dos pescadores do Massachussets, e da protagonista Ruby, uma pescadora que encontramos em ação no mar. Recebemos ainda uma importante informação de caracterização: Ruby gosta de cantar.

Conhecemos também o seu pai e irmão, pescadores como ela. No entanto, a informação de que ambos são surdos é uma surpresa que fica reservada para a página 3, depois de conhecermos melhor Ruby e percebermos que ela canta, fala e ouve normalmente.

Dune – Guião de Jon Spaihts e Denis Villeneuve e Eric Roth

A estória de Dune começa no planeta Caladan, longe do cenário principal da estória, o planeta Arrakis. Devido à sua complexidade, o guião tem uma fase inicial longa e carregada de informação sobre o universo ficcional, o seu contexto geo-político, e a vasta galeria de personagens.

Os autores decidiram, pois, começar a estória com alguma ação, através de um sonho que antecipa a guerra de guerrilha que irá acontecer mais tarde em Arrakis. Nesse sonho é ainda destacada a personagem Chani, que tão importante virá a ser para o protagonista, Paul Artreides.

O próprio Paul é apresentado logo a seguir, no fim da primeira página, quando acorda e nos apercebemos de que era ele quem estava a sonhar. O tema dos sonhos, das visões, que marca toda a estória, é assim abordado desde o início.

The lost daughter – Escrito por Maggie Gyllenhaal

Este filme profundo e delicado sobre as relações entre mães e filhas, adaptado de um romance de Elena Ferrante, é outro bom exemplo de um começo in medias res. Encontramos a protagonista, Leda, em plena crise emocional, sofrendo um pequeno acidente automóvel, e desfalecendo de seguida à beira mar.

Ainda na primeira página ocorre um salto temporal para um período anterior. Vemos aí a mesma Leda, a conduzir o mesmo carro numa estrada semelhante, mas num estado emocional completamente distinto. Fica assim lançada, desde logo, uma primeira questão dramática: o que aconteceu entre estes dois momentos tão distintos?

The power of the dog – Escrito por Jane Campion

O guião do poderoso filme que Jane Campion escreveu e realizou para a Netflix, um dos favoritos nestes Óscares, começa com a apresentação do mundo em que a estória se desenrola: um rancho de gado em Montana, no início do século passado.

É aí, em ação, que vamos também conhecer o seu carismático e complicado protagonista, Phill, a comandar os trabalhadores do rancho. Percebemos que é um tipo rijo, que não tem medo de meter as mãos na massa. A autora conseguiu até introduzir uma importante referência temática logo nesta primeira página: Phill é-nos apresentado a capar bezerros, cortando-lhes os testículos.

King Richard, em pessoa

Conclusão

Estes sete exemplos da importância das primeiras páginas, retirados de bons guiões recentes, são apenas alguns dos que poderíamos encontrar.

Haveria muitos mais, pois limitam-se a reflectir uma importante tendência do cinema comercial de todos os tempos, mas que é ainda mais importante no momento atual: não temos tempo a perder para pôr as nossas estórias em movimento.

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.