É assim que eu escrevo: Pedro Lopes e a primeira série Netflix portuguesa, “Glória”

O convidado de hoje é um homem de muitos talentos e sucesso incontestável, ou talvez de muitos sucessos e talento incontestável. Certo, certo, é que já o devia ter entrevistado há muito tempo.

O Pedro Lopes é licenciado em História pela Universidade de Lisboa, com mestrado em Comunicação, Cinema e Televisão e doutorando em Ciências da Comunicação pelo ISCTE.

Desde 2007 é Diretor de Conteúdos da produtora de TV SP Televisão, onde escreveu para cinema e televisão, tendo sido autor de mais de vinte títulos, entre curtas e longas-metragens, minisséries, séries e programas de horário nobre.

É também o atual Presidente da APAD, Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos, tendo-me sucedido nesse cargo.

O seu feito mais recente é ter liderado a equipa que criou “Glória”, a primeira série portuguesa da Netflix, que recebeu, nos últimos Prémios Sophia, o troféu de Melhor Telefilme/Série de Televisão.

Foi isso que motivou a entrevista – excelente, estimulante, inspiradora – que partilho de seguida.

“Glória”, disponível na Netflix.

Entrevista

JN: Olá Pedro, obrigado por teres aceitado esta entrevista.

Começo por dar-te os parabéns por todas as distinções que a série “Glória” tem recebido, que culminaram (para já) com o troféu de Melhor Telefilme/Série na última edição dos Prémios Sophia, da Academia Portuguesa de Cinema.

Estavas à espera de uma receção tão boa, tanto da crítica como do público?

PL: Não escrevo a antecipar as reações da crítica ou do público, mas obviamente que gostaríamos que a série fosse vista pelo maior número de pessoas, tanto em Portugal como no resto do mundo, tendo em conta que ficou simultaneamente disponível em 193 países. O processo não partiu da tentativa em chegar a um target específico, mas simplesmente encontrar a forma certa de contar uma estória complexa sem se tornar demasiado abstrata.

JN: Como é que surgiu a ideia para esta série, “Glória”?

PL: A minha família materna trabalhava na Emissora Nacional, e o meu avô acompanhou por diversas vezes um dos engenheiros que esteve envolvido no processo de criação daquele complexo de onda curta, por isso posso dizer que desde sempre ouvi estórias da Raret.

JN: Como é que a Netflix entrou no processo? Podes falar um pouco da abordagem a essa plataforma?

PL: A nossa indústria vive da confiança, ou seja, parte do pressuposto que temos a capacidade de escrever aquilo que estamos a vender no pitch, e por isso a ideia é o mais importante, mas o nosso percurso e da produtora também são relevantes. Os contactos com a Netflix foram-se estabelecendo nos diversos mercados, Cannes, Miami e outros. Quando surgiu a oportunidade de apresentar um projeto sabíamos que não podíamos falhar e por isso escolhemos uma estória bem portuguesa, mas que podia ter ressonância mundial.

JN: Eles interferiram muito no processo de escrita e desenvolvimento? De que forma, exatamente?

PL: Para ser sincero, não houve qualquer interferência. Tivemos duas ou três reuniões em que me questionaram sobre determinadas opções, mas nunca recebemos notas escritas ou fomos condicionados na estória que queríamos contar.

JN: E no resto da produção?

PL: Posso dizer que foi a mesma coisa. Respeito total pelo trabalho criativo.

JN: Desenvolver a estória, o mundo e os personagens de “Glória” deve ter exigido muita pesquisa, imagino. Podes falar um pouco sobre isso?

PL: A pesquisa é sempre uma etapa do processo que me interessa – talvez porque sou licenciado em História – porque aprendo imenso não só para a série, mas começam a surgir outras estórias que vão ficando apontadas nos cadernos. Mas esta série em particular obrigou a ler muito. E depois, numa fase final do processo, tivemos a ajuda de consultores históricos.

JN: Como decides quando já tens a informação suficiente e está na altura de começar a escrever?

PL: Quando começo a sentir que a minha forma de pensar está a ficar demasiado presa à realidade e não ao que é verosímil, é o momento de pôr os livros de parte. O objetivo é fazer uma obra ficcional e não um documentário, logo a lógica não é retratar exatamente o que aconteceu, mas ter dados suficientes para contar uma estória do que podia ter acontecido.

JN: Qual é a tua posição no velho dilema: respeitar os factos históricos versus maximizar o impacto dramático da estória?

PL: Não é um jogo fácil. Eu sou bastante agarrado aos factos, mas no final temos de privilegiar o impacto dramático. A questão é como fazer isso sem quebrar o pacto que temos com o público, ou seja, as regras que estabelecemos para o nosso jogo.

JN: No IMDB tu apareces como criador da série, mas os créditos de escrita são divididos, além de ti, por um grupo extenso de guionistas: a Inês Gomes, Rita Roberto, Filipa Poppe, Miguel Simal, André Tenente, Manuel Mora Marques, Mafalda Cordeiro, Mário Cunha e Marina Ribeiro.

Como é que funcionou esse writer’s room?

PL: Eu gosto de trabalhar em equipa. Normalmente surjo com a ideia, desenvolvemos em conjunto, escrevemos em conjunto e depois faço uma longa rescrita.

O writer’s room de “Glória”.

JN: Como é que escolhes os guionistas para trabalhar num projeto como este? Que qualidades deve uma argumentista ter para fazer parte de uma equipa de escrita?

PL: Neste caso foram os suspeitos do costume. A minha escolha tem em consideração a criatividade, mas também a capacidade para trabalharem em equipa.

JN: Que recomendações especiais deixarias para uma equipa de escrita, e para quem a dirige, com base na tua longa experiência nesse campo?

PL: Para quem dirige, ter a capacidade de ouvir, mas não ter medo de tomar decisões. Para os argumentistas que integram a equipa, ter a capacidade de aceitar a visão do autor e trabalhar para que ela seja concretizada.

JN: Passando ao teu processo de escrita mais pessoal, como é que procedes normalmente? És dado a tratamentos, escaletas, etc. ou passas de imediato ao guião? Desenvolves biografias de personagens, etc?

PL: Raramente escrevo o guião sem ter preparado tudo antes, definir bem o conceito, escrever uma sinopse longa, o tratamento de todos os episódios, escaletas…

JN: Quanto tempo costumas levar a escrever um guião de televisão, e a que ritmo?

PL: Numa série talvez umas três semanas para ter uma primeira versão.

JN: Por quantas versões passas, em média, até estares minimamente satisfeito?

PL: Faço muitas versões, continuo a rescrever até ao dia em que acaba de filmar.

JN: Em que fase dás a ler aquilo que escreves? É a amigos, colegas, familiares — ou logo para o produtor?

PL: Como sou Diretor Geral de Conteúdos da SP Televisão os projetos vão diretamente lá a cima. Pode acontecer que depois de uma rescrita em que tenha mudado quase tudo dê novamente à equipa para ler e debatermos o episódio. Tal como os argumentistas que trabalham comigo têm o meu feedback, também gosto de ter o deles.

JN: Como lidas com as notas e comentários de terceiros, produtor, realizador, leitores?

PL: Naturalmente. Faz parte da indústria. Se alguém vai investir dinheiro naquilo que escrevi tenho de ter abertura para o ouvir. Mas há pessoas que respeitamos mais que outras, ou que consideramos ter mais conhecimento sobre narrativa, mas julgo que isso acontece em qualquer profissão. 

JN: Qual é a tua abordagem às rescritas, que processo usas?

PL: Normalmente é um processo mais solitário, ou convoco outro argumentista para bater bolas comigo.

Pedro Lopes, o homem do momento.

JN: Onde é que escreves? E quais são os teus horários/ritmos normais de escrita?

PL: Escrevo sobretudo de manhã bem cedo. A partir de meio da tarde posso rescrever, mas para a folha em branco tenho de estar fresco.

JN: Que apetrechos usas para escrever: papel e caneta? Computador? Software? Quais e porquê?

PL: Escrevo no Final Draft, mas não dispenso o meu bloco de notas.

JN: Quais seriam as condições ideais para poderes escrever o grande guião da tua vida?

PL: Eu acho que isso só depende de mim, mas se estiver a fazer muitos trabalhos ao mesmo tempo vou ter mais dificuldade em focar-me.

JN: Qual a avaliação que fazes do futuro do audiovisual em Portugal, incluindo as plataformas de streaming? Espanha e Brasil estão com força total, mas isso não se sente tanto no nosso mercado. Porquê?

PL: Vamos ver o resultado da transposição da diretiva europeia. Falamos novamente daqui a dois anos.

JN: Termino com uma pergunta que me é feita muitas vezes aqui no site pelos leitores: uma pessoa que tenha uma série de televisão para apresentar, um piloto e uma bíblia/deck de apresentação, deve fazer exatamente o quê?

PL: Contactar as produtoras. A maioria não vai responder, mas eu nunca deixei de ler e responder a ninguém.

JN: Obrigado, Pedro, e boa sorte nos teus próximos projetos, que todos aguardamos com expectativa.

“Uma estória bem portuguesa, mas que podia ter ressonância mundial”.

João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller apaixonado por contar estórias e ajudar outras pessoas e marcas a contar as estórias delas. Divide o seu tempo entre Portugal, Brasil e Angola, tendo já escrito mais de 3500 páginas de guiões produzidos de longas metragens, telefilmes, séries de televisão e curtas.

3 thoughts on “É assim que eu escrevo: Pedro Lopes e a primeira série Netflix portuguesa, “Glória””

    1. Viva Pedro Anísio, o Pedro Lopes refere-se a uma questão legal. Há uma diretiva da União Europeia que obriga as plataformas de streaming a investir mais na produção local dos países onde operam. Essa diretiva está a ser “transposta”, ou seja, adaptada à legislação portuguesa, o que nos dá esperanças de que no futuro esses operadores venham a investir mais fortemente na produção de séries em Portugal.

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