Beat – um aplicativo grátis de escrita para Mac

Há mais um concorrente ao título de melhor aplicativo de escrita de guião: o Beat. Este programa, que só descobri esta semana, é descrito pelo seu criador, o cineasta e artista finlandês Lauri-Matti Parpei, como “um aplicativo de roteiro elegante e minimalista para macOS, gratuito e de código aberto.”

O autor acrescenta ainda que “o Beat foi criado por um guionista para guionistas. Possui um interface de utilizador minimalista e livre de distrações e formata magicamente o seu roteiro.

De algumas formas, o Beat é muito semelhante a outros dois aplicativos de escrita baseados nativamente no formato Fountain, o Highland e o Slugline. Mas, ao contrário deles, é grátis, o que nos tempos que correm faz muita diferença 1.

Apresentação

O Beat tem tudo aquilo que se pode esperar de um software especializado na escrita audiovisual.

O interface de Beat é elegante e minimalista, com um design bem concebido, totalmente focado na eficácia da escrita, bem dentro dos parâmetros do Mac.

Um interface minimalista mas prático.

Tem um modo de foco, em que podemos colocá-lo em ecrã inteiro e sem barras laterais; um modo noturno, à semelhança de outros programas atuais; e um modo “máquina de escrever”, em que a linha onde estamos a escrever se mantém sempre fixa no centro da página.

Além disso, o software pode mostrar uma Linha de Tempo do guião (opcional) na base da página, com todas as cenas, proporcionais à sua dimensão, encaixadas na largura da página. Nessa visualização, a cena que estamos a editar aparece destacada, o que nos permite ter em cada momento uma ideia de onde estamos na estória.

A Linha do Tempo em baixo e a navegação à esquerda.

Finalmente, o Beat inclui um relógio temporizador, que nos permite estabelecer sprints de escrita com facilidade.

Automatização

Como qualquer bom aplicativo de escrita de guião, o Beat permite a formatação automática e correcta dos diversos elementos constituintes de um guião: Cabeçalhos, Ação, Personagens, Diálogos, Parênteses e Transições.

Estes elementos são apresentados no seu formato final, mas é possível desativar essa opção e vê-los no formato da sintaxe Fountain, de que falarei mais adiante.

Além disso o programa memoriza e propõe automaticamente elementos já escritos antes, como nomes de personagens ou locais.

Nomes de personagens automáticos.

Planeamento

O Beat permite fazer toda a pré-escrita das nossas estórias, oferecendo soluções para sinopses, escaletas e mapas de cartões de cenas, que são ferramentas essenciais para o planeamento das tramas.

Ainda não explorei extensamente estas ferramentas, mas pelo pouco que testei parecem-me funcionar perfeitamente. O seu uso é simples e as mudanças na ordem das cenas feitas na escaleta ou nos cartões são reflectidas no corpo do próprio guião.

Um mapa de cartões com arrastar/soltar

Permite ainda a organização do guião em secções, por exemplo em Atos e Sequências, que aparecem nestes modos de planeamento mas não são visíveis no guião final.

Podemos adicionar cenas, secções e sinopses, e reorganizar toda a estrutura arrastando e soltando as linhas da escaleta ou os cartões.

Podemos também atribuir cores diferentes às cenas, que não são impressas mas facilitam, por exemplo, na distinção de diversas tramas secundárias.

Dar cores às cenas.

Além disso, é possível filtrar e visualizar as cenas pela sua localização, cor ou nome, ou seleccionar apenas as cenas que apresentam um determinado personagem.

Reescrita e produção

O Beat oferece algumas ferramentas simples de análise do guião, como estatísticas sobre o número de palavras e informações sobre os personagens que têm mais linhas de diálogo, o número de cenas interiores/exteriores ou a divisão dos diálogos por género.

Estatísticas simples mas úteis.

Tem também um modo de revisão bastante profissional, que permite marcar, automática ou manualmente, as alterações ao guião, e destacar essas alterações no PDF exportado, de acordo com as convenções.

A numeração das cenas é fácil e intuitiva, podendo ser automática ou manual, ou uma combinação das duas.

O Beat sabe ler com perfeição arquivos criados pelo Final Draft, Highland, Fade In e Celtx, e exportar em formato PDF ou Final Draft. Esta flexibilidade de importação e exportação é fundamental para o incluir no fluxo de trabalho de qualquer profissional.

Finalmente, para os guionistas mais geeks, o Beat permite que os utilizadores criem os seus próprios plugins e extensões, que acrescentam novas funcionalidades ao programa.

O Formato Fountain

Os arquivos do Beat são salvos usando o formato de sintaxe Fountain, que utiliza ficheiros de texto simples.

Já falei antes sobre as vantagens deste formato, que foi criado, entre outros, pelo guionista John August. Segundo os criadores,

Fountain é uma sintaxe simples de marcação para escrever, editar e partilhar guiões em formato de texto simples, fácil de ser lido. Fountain permite-lhe trabalhar no seu guião em qualquer lugar, em qualquer computador ou tablet, usando qualquer programa que edite ficheiros de texto.

Pode encontrar aqui um tutorial sobre a escrita usando a sintaxe Fountain, cuja leitura aconselho antes de usar o Beat.

A principal vantagem de guardar tudo num arquivo de texto simples é que este formato é à prova de futuro 2.

Mesmo que o Beat, o Highland, o Final Draft e todos os softwares de escrita de guião sejam descontinuados, poderemos sempre ler estes arquivos com qualquer editor de texto simples.

O formato Fountain nativo

Dessa forma, é o formato ideal para o arquivo de longo prazo dos nossos trabalhos, mas com a ajuda de programas como Beat é também perfeito para o trabalho corrente.

Utilização

Escrever no Beat é uma combinação entre escrever no Final Draft e escrever no Highland.

Como o Final Draft, o Beat usa as teclas de parágrafo e tabulação para mudar o formato de alguns elementos.

Por exemplo, quando fazemos parágrafo a seguir a um Cabeçalho a linha resultante é automaticamente convertido numa linha de Ação; um parágrafo a seguir a Ação continua a ser Ação; mas se fizermos uma tabulação, o formato muda automaticamente para Personagem; e um parágrafo a seguir a Personagem é automaticamente convertido em Diálogo.

Como o Highland, o Beat reconhece automaticamente todas as convenções de escrita Fountain.

Por exemplo, qualquer linha começado por Int., por Ext. ou por I/E é automaticamente convertida num Cabeçalho e formatada em maiúsculas como deve ser; e qualquer linha começada pelo símbolo > é imediatamente reconhecida como uma Transição e apresentada no local certo.

Reconhece também as convenções do Fountain para Diálogos Duplos, Notas, Comentários, Revisões, Sinopses, etc. O Manual e o Tutorial incluídos no menu Help explicam tudo de forma simples e eficaz.

Um Manual e Tutorial (em inglês) simples mas completos.

Infelizmente, o Beat tem uma ou duas pequenas falhas, que tenho vindo a identificar.

Por exemplo, se escrevermos CUT TO: (em maiúsculas e terminando em dois pontos) ele reconhece automaticamente que se trata de uma Transição, o que é positivo.

Mas se escrevermos, em português, CORTA PARA: ele formata a linha como um Personagem, apesar de usarmos exatamente o mesmo formato em maiúsculas e terminação em dois pontos. A solução é forçar o reconhecimento da Transição escrevendo antes o símbolo >, como mencionado acima.

Outro exemplo: se fizermos parágrafo a seguir a uma linha de Diálogo e escrevermos um ( parênteses inicial, o programa deveria automaticamente mudar a linha para o formato de Parênteses, mas não o faz; em vez disso formata como Ação.

Neste caso a solução é fazermos quebra de linha (shift + parágrafo) em vez de fazermos apenas parágrafo.

Podemos também desativar, nas Preferências, a opção Automatic Paragraph Breaks, mas aí a quebra de linha passa a ser a opção por defeito e para fazer um parágrafo teremos que carregar sempre duas vezes na tecla “parágrafo”. Ambas as soluções são simples mas não são ideais.

Tenciono chamar a atenção ao autor do software sobre estes problemas (e outros que venha a descobrir) no grupo de Discord que ele mantém como forum dos utilizadores. Pode ser que ele consiga soluções simples numa próxima atualização.

Vantagens, desvantagens e alternativas

Um potencial problema do Beat é que, tanto quanto consegui perceber, o seu interface é exclusivamente em inglês, o que pode afastar alguns utilizadores que não dominem essa língua.

O interface é inglês mas é simples de dominar.

O problema já não se coloca para a correção automática de texto, pois o programa aproveita todas as potencialidades do sistema operativo macOS. Como tal tem integrada a correção ortográfica em língua portuguesa (de Portugal e do Brasil) e em muitas outras línguas.

A grande vantagem do Beat é que é gratuito e continuará sempre a sê-lo. Está escrito em código aberto e qualquer programador pode, se quiser, adaptá-lo e desenvolvê-lo, desde que o mantenha gratuito.

Isto permite, por exemplo, que os guionistas mais geeks possam desenvolver extensões para o programa, das quais já existem algumas disponíveis.

São exemplos um plugin que oferece um modo de outline mais potente e completo, que já instalei e estou a testar; ou um outro (engraçado mas bastante inútil) que nos permite baralhar aleatoriamente a ordem das cenas.

Olhando para aspectos mais negativos, o principal problema do Beat é que está disponível apenas para o sistema operativo dos Mac, o macOS, e o seu criador não tem intenção de o portar para outras plataformas, como o Windows ou Linux.

Aparentemente vai haver uma versão para o iOS, o sistema operativo dos iPhones e iPads, que pode ser interessante para quem esteja no ecossistema Apple.

Recordo no entanto um fator importante: o aplicativo é exclusivo para Mac, mas o ficheiro Fountain, sendo de texto simples, é universal. Pode ser aberto e editado em qualquer editor de texto, no computador ou no telefone, em Mac, Windows ou Linux.

Os milhões de utilizadores de Windows e Linux terão assim várias opções de softwares gratuitos que suportam ou importam Fountain, dos quais destaco três:

  • o Trelby, software que nunca experimentei porque não tem versão Mac, mas que pela descrição e funcionalidades me parece muito completo;
  • o WriterSolo, que tenho recomendado sistematicamente nos meus cursos de escrita pois é um aplicativo multiplataforma e muito capaz;
  • e o ArcStudio, online e limitado a dois projetos de cada vez, mas que oferece boas funcionalidades e um excelente interface 3.

Para conhecer outras opções, pagas ou gratuitas, pode ler este artigo anterior.

Conclusão

Em resumo, o Beat oferece tudo o que um guionista, tanto iniciante como avançado, pode necessitar para levar até ao fim qualquer projeto de escrita.

E isso com a segurança de saber que, a qualquer momento, poderá exportar o seu trabalho como PDF ou como Final Draft, que são os dois formatos universais na indústria audiovisual, ou no formato de texto simples Fountain.

Se utiliza o sistema operativo macOS e não se assusta com menus em inglês, o Beat é um aplicativo grátis, elegante e muito completo, que lhe oferece todas as opções e funcionalidades necessárias para escrever e rever qualquer guião, desde a curta-metragem mais simples à série de televisão mais complexa.

João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller apaixonado por contar estórias e ajudar outras pessoas e marcas a contar as estórias delas. Divide o seu tempo entre Portugal, Brasil e Angola, tendo já escrito mais de 3500 páginas de guiões produzidos de longas metragens, telefilmes, séries de televisão e curtas.

Notas de Rodapé

  1. Para ser completamente transparente, o Highland e o Slugline também não são caros, e ambos constituem excelentes opções.
  2. A não ser que uma 3ª Guerra Mundial nos faça reverter para a escrita em placas de argila
  3. E um blogue com artigos muito interessantes sobre escrita.

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