Ferramentas do guionista: a elipse narrativa – 1ª parte

Os guionistas têm à sua disposição uma extensa gama de ferramentas que podem utilizar para enriquecer as suas obras. Uma das mais importantes é a elipse narrativa, uma ferramenta que é tão omnipresente que muitas vezes se torna invisível. 

A utilização da elipse narrativa tem vindo a evoluir em paralelo com o conjunto da linguagem cinematográfica e audiovisual. Os espectadores contemporâneos entendem (e exigem) elipses cada vez mais sofisticadas. 

Chegou pois o momento de analisarmos este recurso com mais detalhe.

O que é uma elipse narrativa?

A elipse é originalmente um termo literário que significa a omissão de uma palavra ou palavras que podem ser inferidas facilmente a partir do resto do texto existente.

Da mesma forma, uma elipse narrativa é uma omissão intencional de alguns eventos ou informações de uma estória.

Apesar desses factos fazerem parte da cadeia narrativa o autor escolhe não os incluir explicitamente. Cabe ao espectador usar a lógica e a imaginação para reconstituir os factos omitidos a partir dos que foram mantidos na narrativa.

Uma elipse é uma omissão intencional de eventos ou informações de uma estória, que o espectador pode imaginar a partir dos que foram mantidos na narrativa.

Tipos de elipses

Marcel Martin, no livro A Linguagem Cinematográfica[1], distingue entre dois tipos de elipses: 

  • aquelas que, segundo Martin, são inerentes a todas as formas narrativas, pois se destinam a eliminar “os pontos mortos ou inúteis da acção“. A estas eu chamaria elipses funcionais, dado que Martin não lhes dá uma designação específica;
  • e as que ele define como elipses expressivas, “porque visam um efeito dramático ou são geralmente acompanhadas de um significado simbólico”

As elipses funcionais

Alfred Hitchcock terá dito, de forma lapidar: “O que é o drama senão a vida com as partes aborrecidas removidas”.

O que é o drama senão a vida com as partes aborrecidas removidas”.

Alfred Hitchcok

As elipses funcionais servem precisamente para eliminar as partes aborrecidas, ou, como Martin especifica, os “pontos mortos ou inúteis” de uma estória. 

São a forma mais simples de todas as elipses, uma ferramenta herdada de outras formas narrativas e adaptada ao cinema através da montagem cinematográfica.

Através delas removemos os pontos mortos da ação, de forma a ganhar tempo e aproveitar melhor a atenção dos espectadores, que é sempre limitada. 

Um exemplo

Vejamos um exemplo deste tipo de elipse funcional: uma sequência narrativa em que um personagem decide visitar a namorada. 

Na sequência real dos acontecimentos ele iria pegar na chave do carro, sair de casa, descer as escadas, atravessar a rua, entrar no carro, ligar o carro, fazer o trajecto, parar em todos os semáforos, eventualmente ouvir música no carro, estacionar, sair do carro, caminhar, tocar à campainha do prédio, e por aí adiante.

Vejamos como essa sequência poderia ser escrita, usando uma elipse temporal simples.

INT. CASA DE JOÃO – HALL – DIA

A caminho da porta, João agarra na chave do carro, que está pendurada num prego.

INT. CASA DE ANA – COZINHA – DIA

Ana observa João enquanto este abre a porta de um armário da cozinha, procurando alguma coisa.

ANA

O café está no outro armário.

(pausa)

Já não te lembras?

(etc.)

Através de uma elipse funcional saltamos simplesmente de um local para o outro, eliminando toda uma viagem que nada acrescentaria à nossa estória.

A evolução das elipses

Com o passar do tempo a utilização destas elipses temporais tem-se tornado cada vez mais económica.

O famoso guionista francês Jean-Claude Carriére regista, em A Linguagem Secreta do Cinema, o testemunho de um velho editor de Hollywood que acompanhou na primeira pessoa essa evolução:

Ele demonstrou a aceleração do processo de montagem através de filmes de diferentes épocas. Mostrou  como nos anos 1930, jamais se entrava em um edifício sem antes mostrar uma visão geral deste, numa tomada descritiva, seguida de uma tomada longa, se possível com alguma placa indicando a localização, e depois em tomadas da entrada, das escadas e do corredor, antes de o personagem encontrar a pessoa esperando (ou não) por ele. E evidenciou como, ao longo dos anos, todas essas tomadas até então essenciais haviam gradualmente desaparecido.

Este tipo de elipse temporal é hoje tão óbvia e natural que é praticamente invisível. Faz parte de uma linguagem do cinema universalmente entendida.

E as narrativas em tempo real?

Há um tipo de narrativas audiovisuais que parece ser uma excepção ao uso das elipses: aquelas que pretendem contar os eventos em tempo real.

Nestas obras cada minuto do filme corresponde, supostamente, a um minuto na “vida real”. Tudo acontece no filme ao mesmo ritmo que acontece na realidade.

Normalmente estes filmes são realizados de forma a simular uma sequência de imagem contínua, sem cortes no tempo. Estas experiências narrativas foram inauguradas no cinema com o filme A Corda, realizado por Alfred Hitchcok em 1948, e retomadas mais recentemente em obras como Birdman ou 1917[2].

Mas mesmo nestes casos não assistimos a todos os eventos relevantes para a estória que acontecem durante esse período. As elipses continuam presentes, embora de outra forma.

Por exemplo, na série 24, cada temporada é composta por vinte e quatro episódios de uma hora, que cobrem em suposto tempo real um período de vinte e quatro horas na vida do protagonista Jack Bauer. 

Mas como a narrativa de 24 acompanha várias linhas de acção em paralelo, quando saltamos de uma trama para outra são introduzidas elipses temporais.

Como é óbvio, enquanto acompanhamos um personagem não estamos a ver os que os outros fazem – por exemplo, não os vemos usar a casa de banho – mas podemos usar a nossa lógica e imaginação para preencher essas lacunas[3].

24 – tempo real, mas realmente não

Outro exemplo ainda mais extremo é o filme Timecode, uma obra experimental escrita e realizada por Mike Figgis no ano 2000.

O autor aproveitou as (então) novas facilidades do vídeo digital para gravar a sua estória em quatro longos planos-sequência de 93 minutos cada, correspondentes a quatro linhas narrativas mostradas em tempo real.

Essas quatro tramas são apresentadas no ecrã dividido em quatro partes. Em alguns momentos em que elas se cruzam, duas partes do ecrã mostram a mesma situação gravada por câmaras diferentes.

Uma curiosidade desse filme é que as limitações do formato tradicional dos guiões para este projeto levaram a que o guião de Timecode fosse escrito de uma forma diferente do comum, mais próxima de uma partitura musical, com as linhas narrativas a correr em paralelo.

Um guião diferente do normal

Mesmo assim, em Timecode o tempo real também é distorcido, porque a mistura sonora cria uma espécie de “elipses virtuais”. Em cada momento do filme a atenção do espectador é focada no que acontece num determinado quadrante do ecrã, em detrimento dos restantes.

Ou seja, através daquilo que Marcel Martin designa por ponto de escuta (por analogia com o ponto de vista), o autor eliminou da narrativa “os pontos mortos ou inúteis da acção“, criando elipses narrativas funcionais.

As elipses expressivas

Além das elipses meramente funcionais que vimos acima, há outras formas de elipse narrativa que têm intenções mais significantes.

Como Marcel Martin refere, estas omissões intencionais de eventos ou informações visam um efeito dramático ou simbólico específico.

Vejamos algumas exemplos de utilização dessas elipses expressivas. A lista, obviamente, não é exaustiva mas serve como uma introdução às possibilidades imensas desta ferramenta.

Saltos no tempo

Uma das principais utilizações das elipses é a demonstração de significativos saltos no tempo.

Talvez a mais famosa de todas seja a que Stanley Kubrick usa num dos meus filmes favoritos, 2001: Uma Odisseia no Espaço.

É a famosa cena em que um dos nossos antepassados hominídeos, depois de aprender a usar um osso como arma, o atira ao ar. Na queda, o osso transforma-se numa nave espacial em órbita  da Terra, num extraordinário salto temporal de centenas de milhares de anos.

Gerir o ritmo da ação

O uso criterioso de elipses pode ser a base para criar Montagens que fazem uma estória avançar de forma muito rápida. O truque é selecionar com muito cuidado quais as cenas que devem figurar.

Neste tipo de sequências de imagens a imaginação e envolvimento do espectador é puxada ao máximo. Não podemos manter a sua atenção neste nível durante os 90 minutos de um filme – ninguém aguenta este nível de digestão de informação por muito tempo – mas pode ser uma maneira de acelerar o ritmo pontualmente.

 Um excelente exemplo é a sequência de montagem da equipa de ladrões, em Ocean’s Eleven.

Dar ideia da passagem do tempo

Por vezes queremos dar um salto no tempo na nossa estória, mas não o queremos fazer num único momento. Nesse caso, uma sequência de cenas ligadas por elipses parciais pode mostrar essa passagem de tempo de uma forma muito eficaz.

Notting Hill, a popular comédia romântica de 1999, mostra-nos um muito curioso exemplo desta solução. Um ano é concentrado num plano sequência único que passa pelas quatro estações enquanto um deprimido Hugh Grant percorre um mercado de rua ao som de Ain’t No Sunshine. É brilhante.

Conclusão (temporária)

Na próxima semana publicarei a segunda parte deste artigo, com a conclusão da análise desta poderosa ferramenta da arte narrativa.

Entretanto, se tiver alguma dúvida ou opinião sobre este tema, por favor deixe nos comentários.

Notas de Rodapé

  1. Traduzido pelo saudoso realizador e crítico Lauro António e pela minha amiga Eduarda Colares[]
  2. Se recordo bem, 1917 tem na verdade uma única elipse temporal, à entrada do 3º ato, que corresponde à perda de consciência temporária do protagonista[]
  3. Mas não necessariamente as idas à casa de banho[]

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