Ferramentas do Guionista: O Mapa de Relações

Há uma ferramenta que uso praticamente em todos os meus guiões mas sobre a qual nunca escrevi aqui: o Mapa de Relações. Neste artigo vou explicá-lo e mostrar como pode ser útil na sua escrita.

Foi no livro “Story” de Robert McKee que, uma vez mais, encontrei inspiração para esta ferramenta. O autor escreve, a certa altura:

“O elenco gira numa órbita em redor da estrela, o seu protagonista. Os papéis do elenco inspiram-se no personagem central e devem desenhar-se para marcar a sua complexidade de dimensões. Os papéis secundários não apenas necessitam dos protagonistas, como se necessitam entre si, para poder projetar as suas dimensões.”

Robert McKee

No Curso de Guião gratuito que publiquei aqui no site dedico três artigos aos diferentes tipos de personagens que povoam as nossas estórias: os protagonistas, antagonistas, e personagens complementares.

Um dos critérios que uso nesses artigos é precisamente caracterizar os diversos personagens pelo tipo de relações que estabelecem com o protagonista e entre si.

No essencial, essas relações encaixam em cinco categorias diferentes:

  • Aliança
  • Conflito
  • Românticas
  • Revelação
  • Transformação

Mas estas relações não são unívocas; elas constroem-se nos dois sentidos, e também entre os diversos núcleos de personagens. Por exemplo, o antagonista principal normalmente tem os seus próprios aliados; um aliado pode ter um interesse romântico, etc.

Além disso, as relações mudam ao longo da narrativa, em função da evolução da trama. Aliados podem transformar-se em amantes ou em adversários; antagonistas podem tornar-se mentores ou aliados; e por aí adiante.

Dessa forma, estabelece-se entre todos os personagens uma rede dinâmica de relações de diferentes tipos e com características diferentes.

O Mapa de Relações

Um Mapa de Relações é uma forma visual de consolidar e entender a nossa orquestra de personagens, o nosso elenco.

Consiste, essencialmente, num diagrama que mostra, num relance, as relações que existem não só entre os diversos personagens e o protagonista, mas também entre si.

É uma ferramenta de trabalho muito útil, especialmente em filmes ou séries de televisão com elencos mais extensos e dinâmicas mais complexas.

Ao criar um Mapa de Relações somos obrigados a refletir sobre as interações entre os personagens, o que, por sua vez, nos força a trabalhar melhor a sua caracterização.

Como McKee refere no trecho citado, devemos usar os personagens complementares para ajudar a desenhar melhor os personagens principais.

Compreender as relações entre uns e outros é uma etapa indispensável para o fazer. Por exemplo, se queremos caracterizar o nosso protagonista como teimoso, o Mapa de Relações poderá dar-nos pistas sobre quais os personagens que melhor podem destacar essa característica.

Numa perspectiva ainda mais prática, o Mapa serve também como uma espécie de cábula a que podemos recorrer num impasse, para recordar rapidamente o essencial da dinâmica entre quaisquer dois personagens.

Às vezes, quando nos sentimos um pouco perdidos, especialmente no desenvolvimento do 2º ato, uma olhadela ao Mapa pode ser o suficiente para lançar luz sobre o problema e desbloquear o caminho.

Finalmente, o Mapa de Relações pode ser também uma ferramenta de venda da nossa estória.

Integrado numa Bíblia de uma série de televisão com um elenco extenso, por exemplo, o Mapa pode ajudar mais rapidamente a compreender quem é quem na estória.

Como desenhar um Mapa de Relações

O processo é muito simples e tanto pode ser feito de forma analógica, com papel e canetas, como digital – ou ambas.

Vou descrever a primeira opção, porque acrescenta uma componente táctil e lúdica que nos força a deixar o computador e olhar a estória sobre novas perspectivas.

Como exemplo, vou descrever o processo para uma estória de modelo mais clássico, com apenas um protagonista. Mas a mesma lógica pode ser aplicada a qualquer tipo de estória.

Para melhores resultados, recomendo que reserve algum tempo de foco para este exercício, sem distrações.

  • Comece por arranjar meia dúzia de folhas brancas A3 – para poder fazer várias versões e tentativas – e uma caixa de canetas ou lápis coloridos. A cor é nossa amiga.
shallow focus photography of color pencil lot
Photo by salvatore ventura on Pexels.com
  • No meio de uma folha escreva o nome do protagonista e faça um círculo à sua volta. É a “estrela” no centro do “sistema solar” da nossa estória.
  • De seguida, vá escrevendo ao seu redor, em “órbita”, o nome dos personagens complementares que já conhece. Se estiver numa fase inicial do desenvolvimento da estória, podem não ser muitos. Pode organizá-los por núcleos – uma família, por exemplo – mas isso não é obrigatório.
  • Escolha uma cor para um dos tipos de relações. Por exemplo, um vermelho bem vivo para as relações de antagonismo. Usando essa cor, desenhe linhas entre o protagonista e os diversos antagonistas que já conhece.
  • Se entre os personagens complementares houver também relações de antagonismo, desenhe essa linhas também. Por exemplo, dois aliados do protagonista podem ser antagonistas entre si.
  • Quando já não tiver mais relações de antagonismo para desenhar, escolhe outra cor para outro tipo de relação, e repita o processo. Vá assim construindo uma rede colorida com as relações de aliança, relações românticas, de transformação e de revelação.
  • Não se esqueça que entre dois personagens pode haver mais do que uma linha: um antagonista pode, por exemplo, ser também uma relação romântica.
  • O nível de complexidade depende exclusivamente de si e da natureza da sua estória – faça o Mapa tão simples ou tão complexo quanto achar será útil.
  • Se quiser adicionar uma camada adicional, pode seguidamente adicionar linhas para as relações que se transformam no decurso da narrativa. Pode usar as mesmas cores, mas por exemplo em tracejado.
  • É raro que a primeira versão que desenhar seja logo a definitiva. No processo de elaboração vamos com certeza descobrir coisas sobre os nossos personagens e a nossa estória que nos vão obrigar a fazer alterações. É aqui que vai ser útil ter várias folhas e muitas cores.
  • Pode usar também usar outros critérios para organizar o seu Mapa: por exemplo, a dimensão dos nomes, a sua proximidade ao centro, a grossura das linhas, etc. A imaginação é o limite e explorar opções contribui para o aspecto lúdico do exercício.
  • Se fizer a primeira versão do Mapa numa fase inicial da concepção da estória, pode ir atualizando ao longo do tempo, acrescentando novos personagens, corrigindo relações, acrescentando novos insights, etc.

O importante é perceber que não há uma maneira certa ou errada de fazer este Mapa. Aquela que lhe der mais jeito e o ajudar melhor é a maneira certa para si.

Depois de terminar esta versão analógica, pode achar útil, ou não, reproduzi-la ou afiná-la com uma ferramenta digital. Um programa como Powerpoint ou o Keynote podem servir para esse efeito. Foi esse último que usei para os exemplos.

Conclusão

O Mapa de Relações é uma ferramenta útil, divertida e flexível. Mas não é obrigatório desenhá-lo, obviamente. Acredito mesmo que 99% dos guiões escritos no mundo não necessitaram desse documento para existir.

Mas também acredito que não tem nada a perder se dedicar uma ou duas horas a desenhar o seu. No mínimo, vai obrigá-lo a pensar na sua estória sobre novas perspectivas, o que é sempre estimulante.

João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller apaixonado por contar estórias e ajudar outras pessoas e marcas a contar as estórias delas. Divide o seu tempo entre Portugal, Brasil e Angola, tendo já escrito mais de 3500 páginas de guiões produzidos de longas metragens, telefilmes, séries de televisão e curtas.

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