O que é um “spec”?

Quem trabalha há algum tempo na indústria do audiovisual, em posições relacionadas com a escrita ou a produção, vai ouvir mais tarde ou mais cedo falar em “specs”. Mas o que é então um “spec”, exatamente?

“Spec” é uma expressão inglesa, abreviatura da palavra “speculative”, que significa “especulativo”, e usa-se para designar os guiões que são escritos por iniciativa própria do guionista.

Por exemplo, o filme Instinto Básico, de 1992, começou como um “spec” escrito por Joe Eszterhas e vendido pelo impressionante valor de 3 milhões de dólares.

Instinto Básico foi um argumento “spec”.

Encomendas

Normalmente um guião nasce por uma de duas vias: ou é uma encomenda de um produtor, ou é uma iniciativa do seu autor.

No primeiro caso, o produtor contacta um argumentista e encomenda-lhe a escrita de um guião.

A encomenda pode ser para desenvolver uma ideia original do próprio produtor ou, mais frequentemente, para adaptar uma obra já existente. Por exemplo, um conto ou uma peça de teatro cujos direitos o produtor adquiriu.

Mais raramente, um produtor pode encomendar a um autor a escrita de uma ideia desse próprio autor.

Um cenário possível para isto acontecer será, por exemplo, o produtor sondar um autor em quem confia para ouvir propostas de ideias originais desse autor. No caso de gostar de uma, poderá então pagar-lhe pela sua escrita.

Como referi, esse cenário é relativamente raro, mas em ambos os casos estaríamos a falar de uma encomenda: o guionista é contratado antes de escrever a obra.

Os specs

A alternativa é o próprio autor, que tem uma ideia em que realmente acredita, avançar com a sua escrita, na esperança de mais tarde conseguir vendê-la.

Isso é, por definição, um “spec”.

É um processo mais arriscado, porque o autor não sabe se o trabalho que vai investir na escrita alguma vez será remunerado. Em contrapartida, terá mais liberdade criativa e, idealmente, uma melhor remuneração no final.

Esse é o modus operandi de autores como Quentin Tarantino, por exemplo, que escrevem e desenvolvem as suas obras por iniciativa própria, e só mais tarde procuram financiadores para as tornar realidade.

Nos anos 90 este era, também, o processo que levava a vendas mais caras, com guiões a ser leiloados por somas astronómicas.

Por exemplo, o guionista Shane Black’s recebeu uns estrondosos 4 milhões de dólares pelo seu guião The Long Kiss Goodnight, recorde que em 2006 foi ultrapassado pelos 5 milhões pagos a Bill Marsilii e Terry Rossio pelo guião de Deja Vu.

Essa febre dos “specs” diminuiu muito mas, por exemplo, na televisão ou em plataformas como a Netflix, pode ser a única maneira de um novo autor conseguir fazer ouvir a sua voz.

Pode não se lembrar de The Long Kiss Goodnight, mas foi um dos “specs” mais caros de sempre.

Conclusão

Se você está a ler este site, é possível que o seu objetivo seja escrever um guião nesta modalidade especulativa, um “spec”. Com talento, trabalho, e alguma sorte, poderá até, no fim da escrita, vendê-lo a uma produtora.

Mas não desanime se isto não acontecer. Na pior das hipóteses, terá uma obra terminada, um roteiro que pode servir-lhe de cartão de apresentação nos seus contatos com produtoras.

Se a qualidade de escrita for boa, o seu guião será uma prova da sua capacidade como autor, o que lhe poderá valer uma encomenda para escrever outro roteiro, ou um lugar numa equipa de escritores.

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.