Pense como o Tarantino

O canal do You Tube Studio Binder tem sempre grandes vídeos de análise do trabalho dos melhores guionistas e diretores da atualidade (o site também é excelente).

Um dos que gostei mais de ver é dedicado a Quentin Tarantino que, como todos os leitores aqui do site já devem saber, é um dos meus autores favoritos.

O vídeo é curto, pouco mais de 13 minutos, mas contém algumas dicas muito úteis desse grande guionista/realizador.

As três primeiras, especialmente, podem ser aproveitadas por qualquer guionista, mesmo que não esteja a pensar em dirigir os seus próprios filmes.

1. Seja pessoal na sua escrita

Tarantino considera que é fundamental trazer para o papel as experiências de vida que estamos a atravessar em cada momento. Se por exemplo estamos a sofrer com o fim de uma relação, isso tem de alguma forma alimentar as emoções do que estamos a escrever.

Não quer dizer que o façamos de uma forma evidente e óbvia, pelo contrário. Ele recomenda que o enterremos debaixo de muitas outras coisas e ideias. Mas, de alguma forma, estará lá a dar verdade e sentimento às nossas palavras.

2. Estruture como na literatura

Quentin Tarantino refere que os escritores sempre tiveram muito mais liberdade para começar os seus livros onde bem lhes apetece e, depois, jogar com a cronologia das suas estórias, andando para a frente e para trás no tempo de acordo com o que lhes convém.

Desde as suas primeiras experiências de escrita que sentiu que isso poderia adaptar-se muito bem à linguagem do cinema. Filmes como Cães Danados e Pulp Fiction, que o lançaram no grande ecrã, são magníficas demonstrações do potencial dramático de estruturar as estórias desta maneira.

Mesmo que optemos por formas mais lineares de narrar a nossa estória, devemos ter sempre em consideração essa possibilidade e a grande liberdade que vem com ela.

Imagem do filme Cães Danados
Danados por fazer maldades…

3. Pense como um ator

A primeira experiência de Tarantino no mundo do cinema foi através de aulas de representação em que participou. Como sabemos, ele de vez em quando ainda vai molhando os pés nessas águas, nos seus filmes ou de outros realizadores.

Mas o mais importante, segundo ele, foi a forma como essa experiência de ator lhe permitiu duas coisas: por um lado, desenvolver o estilo de diálogos que usa nos seus filmes e lhe são tão característicos.

Por outro lado, permitiram-lhe compreender a forma como os atores pensam, o que o ajuda não apenas a escrever, mas também a lidar com eles durante as rodagens.

Começar com aquela caneta e aquela folha de papel em branco. Essa é a minha jornada. Esse é o meu coração das trevas. Isso é o que eu realmente vim ao mundo para fazer.

4. Ação à moda de Hong Kong

Esta dica interessa mais aos realizadores, e especificamente aos que têm de lidar com sequências de ação.

Tarantino prefere filmá-las à moda dos realizadores de Hong Kong, ou seja, agrupadas em pequenos blocos de movimentos, gravados na ordem cronológica natural.

Acredito nele.

5. Manter presente a música

Quem tem acompanhado os filmes de Tarantino sabe que as suas bandas sonoras são sempre de excelente qualidade. No vídeo ele explica que prefere usar músicas já gravadas do que recorrer a compositores para criar bandas sonoras específicas.

Eu já recomendei aqui no blogue que, de forma geral, não devemos referir músicas específicas nos nossos guiões, e mantenho essa recomendação.

Isso não quer dizer que não possamos criar uma playlist especial para nos acompanhar e inspirar durante a escrita; uma espécie de banda sonora do filme que temos na cabeça.

Eu faço isso muitas vezes, e acho que ajuda imenso. Devemos é resistir à tentação de referir essas músicas no texto, pelas razões que explico no artigo acima mencionado.

A não ser, obviamente, que sejamos o Quentin Tarantino, a escrever para nós mesmos produzirmos e realizarmos…

Veja o vídeo que referi e deixe os seus comentários e questões abaixo.

João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller apaixonado por contar estórias e ajudar outras pessoas e marcas a contar as estórias delas. Divide o seu tempo entre Portugal, Brasil e Angola, tendo já escrito mais de 3500 páginas de guiões produzidos de longas metragens, telefilmes, séries de televisão e curtas.

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