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Ferramentas do Guionista: o Gancho

    David Mamet, um dos mais respeitados autores de cinema e teatro, escreveu algures que “A tarefa de um dramaturgo é fazer o espectador interrogar-se sobre o que acontecerá a seguir.” Concordo absolutamente com ele.

    Se ignorarmos todas as “regras” de escrita de guião, mas mesmo assim mantivermos o interesse do nosso público, estaremos a fazer bem o nosso trabalho. Pelo contrário, se formos uns escrupulosos seguidores do que os gurus da escrita ensinam, mas os espectadores nos saudarem com bocejos e mudança de canal, teremos falhado a nossa missão.

    O que é um gancho

    Uma das formas mais eficazes de conseguir o que Mamet preconiza acima é utilizando uma ferramenta que em inglês se chama “cliffhanger” e em português é normalmente designada por “gancho”.

    Um Gancho é uma ferramenta de escrita em que o autor coloca um personagem numa situação de desfecho incerto mas interrompe a narrativa antes de esclarecer como ela se vai concluir. A técnica é utilizada para criar uma sensação de suspense ou incerteza no final dessa parte da narrativa, deixando o público em suspense, ansioso por saber mais.

    Como tantas outras técnicas de escrita, o gancho é originário da literatura e do teatro, tendo sido adotado pelo cinema e televisão com o mesmo propósito: manter o público preso a uma estória.

    No teatro clássico, por exemplo, era muito usada no final dos atos, antes dos intervalos, como forma de garantir que os espectadores regressavam aos seus lugares no fim da pausa, em vez de se dirigirem ao bar mais próximo.

    Na literatura, um dos exemplos mais famosos é o livro As Mil e Uma Noites, em que o destino da protagonista Xerazade depende exclusivamente da sua capacidade de todas as noites criar ganchos que levem o seu noivo, o rei da Pérsia, a prolongar-lhe a vida mais um dia para ouvir o final das estórias que vai inventando.

    Em televisão, os ganchos são muito utilizados antes dos intervalos de publicidade ou no final dos episódios. Podem, também, ser usados no final de uma temporada, abrindo o apetite para a temporada seguinte.

    No cinema não é tão frequente usar os ganchos no fim dos filmes, a não ser quando se preparam sequelas.

    São utilizado mais frequentemente para fechar uma sequência inicial, como forma de criar interesse sobre a estória que se segue, ou no fim de uma cena numa determinada trama, antes de mudar para outra trama, mantendo os espectadores ansiosos por regressar à primeira.

    Num caso ou noutro, os ganchos podem assumir diferentes formas, das quais vou referir apenas algumas.

    (Nota: os spoilers vão abundar, por isso leia por sua conta e risco).

    Uma ameaça iminente

    Terminar uma cena ou episódio com uma ameaça iminente sobre um personagem é talvez a forma mais comum de criar uma sensação de urgência e antecipação sobre o que acontecerá em seguida.

    Até foi esta forma de gancho que esteve na origem da expressão inglesa “cliffhanger”, no sentido de “pendurado à beira do abismo”.

    Neste tipo de ganchos o personagem, geralmente o protagonista, é colocado à beira de um abismo, literal ou figurado, em que a sua segurança ou vida ficam em perigo.

    No final do 1º episódio de The Walking Dead, por exemplo, o protagonista fica fechado dentro de um tanque de guerra, cercado por todos os lados por uma massa de zombies sedentos de sangue. É impossível resistir à tentação de ver o segundo episódio.

    Revelando uma reviravolta

    Outra maneira eficaz de criar um gancho é revelar uma reviravolta que o público não esperava.

    Isso pode ser uma revelação chocante que muda a percepção do público sobre a estória e cria emoção sobre o que acontecerá em seguida.

    Um dos exemplos mais famosos encontrar-se no final do segundo filme da saga Star Wars, O Império Contra-Ataca, quando Darth Vader revela a Luke Skywalker ser o seu pai.

    “Não! Eu sou o teu pai!”

    Pode ser, também, um desfecho inesperado para uma determinada situação, deixando mais perguntas do que respostas no ar.

    Por exemplo, no final do filme Avengers: Infinity War, uma mão cheia de super-heróis e metade da população do Universo são eliminados por Thanos, no estalar de dedos mais famoso do cinema.

    Quando isto aconteceu, em 2018, todos os fãs do universo Marvel ficaram em suspenso durante um ano, esperando a sequela, Avengers: Endgame, para saber como aquela derrota poderia (ou não) transformar-se em vitória.

    Finais ambíguos

    Outra maneira de criar um gancho é terminar uma cena ou episódio com um final ambíguo. Isso deixa o público com perguntas sem resposta e cria uma sensação de antecipação sobre o que acontecerá em seguida.

    Muitas vezes este tipo de finais não se destina a criar antecipação sobre uma resposta, porque sabemos que ela nunca virá, mas sim a prolongar a estória na cabeça dos espectadores, apelando à sua imaginação.

    Um grande exemplo encontra-se no final de Os Sopranos, com o famoso corte abrupto que deixou meio mundo a discutir o destino de Tony Soprano.

    O mesmo se passa com o final do filme Lost in Translation, em que as palavras segredadas por Bill a Charlotte, que nunca chegamos a ouvir, vão ser imaginadas de formas diferentes por cada espectador.

    Um último exemplo: o filme Inception termina com a cena em que o pião fica a girar, criando incerteza sobre se o protagonista está na realidade ou ainda está num sonho.

    Um evento repentino

    Terminar uma cena ou episódio com um evento repentino e inesperado também pode criar um gancho forte.

    Isso pode ser uma morte súbita, uma prisão surpreendente ou uma mudança repentina de circunstâncias que deixa o público a interrogar-se sobre o que acontecerá em seguida.

    Por exemplo, no final da terceira temporada de Peaky Blinders o protagonista assiste, impotente, à prisão de todos os seus familiares. Mas como sabíamos que ele já tinha um plano, não nos restou senão aguardar (ansiosamente) pela chegada da 4ª temporada, para saber como ele se iria desenvencilhar.

    Na série de TV Game of Thrones, por outro lado, o episódio The Red Wedding termina com a morte chocante e repentina de vários personagens importantes, deixando o público em sobressalto e antecipação sobre o que acontecerá em seguida.

    Para que usar os ganchos?

    Os ganchos são uma ferramenta poderosa na caixa de ferramentas de um guionista. Eles podem criar dinâmica, gerar antecipação e desenvolver os personagens de maneiras significativas.

    Vejamos algumas formas de usar os ganchos de forma eficaz nos nossos guiões.

    Para criar antecipação

    Como vimos, os ganchos ajudam a criar antecipação para o que está por vir.

    Quando deixamos o público com um senso de incerteza ou perguntas sem resposta, eles estarão ansiosos para ver como as coisas vão se desenrolar.

    Isso serve para acumular tensão emocional que mais tarde será descarregada de forma satisfatória para os espectadores.

    Para criar dinâmica

    Quando terminamos uma cena ou episódio com um cliffhanger, um gancho, criamos um senso de urgência que impulsiona a estória para a frente.

    Isso é uma das melhores formas de criar uma sensação de dinâmica e de ritmo nas nossas estórias.

    Num filme, por exemplo, podemos criar um gancho numa determinada trama e mudar temporariamente para outra. Ao deixarmos os espectadores ansiosos por saber o que vai acontecer estaremos a acelerar significativamente a nossa narrativa.

    Para o desenvolvimento de personagens

    Os ganchos também podem ser usados como uma ferramenta para o desenvolvimento de personagens.

    Ao colocarmos os nossos personagens em situações difíceis ou perante revelações surpreendentes, obrigamo-los a tomar decisões, o que, como já referi em vários locais, é a melhor forma de revelar as suas verdadeiras características e personalidade.

    Situações e revelações limite, como são normalmente os ganchos, também criam oportunidades para que os nossos personagens cresçam e se transformem. E a mudança, como também já referi antes, é sempre uma fonte de satisfação para os espectadores.,

    Lembre-se de “pagar” os ganchos

    Os ganchos são uma ótima maneira de manter o nosso público envolvido e interessado na nossa estória, mas isso só acontece se não nos esquecermos de lhes dar resposta, ou seja, de “pagá-los”.

    Quando deixamos o nosso público pendurado, criamos uma expectativa de que algo grande vai acontecer. Se não cumprirmos essa expectativa, corremos o risco de perder a confiança e o interesse do nosso público.

    Por exemplo, no final da 5ª temporada da já referida série Peaky Blinders, o protagonista Thomas Shelby é deixado num campo com uma arma encostada à cabeça, à beira de se suicidar, depois de todos os seus planos terem ido por água abaixo pelas mãos de um inimigo misterioso.

    No início da 6ª temporada ele tenta efectivamente suicidar-se, mas a arma foi descarregada pela mulher, o que “paga” satisfatoriamente a primeira questão.

    Quanto à segunda questão em aberto, a culpa do seu fracasso é atribuída a um inesperado IRA, que cai do céu sem grande justificação. Isso frustrou um pouco os fãs, que gostariam de ter visto uma resposta, um “pagamento”, mais em linha com a sequência narrativa da estória até ao momento.

    Conclusão

    O gancho é uma técnica eficaz para criar expectativa e emoção sobre o que virá a seguir numa estória.

    Ao utilizar finais ambíguos, revelações chocantes, momentos dramáticos e ameaças iminentes, os guionistas mantém o suspense, criam dinâmica e caracterizam os personagens.

    Um último alerta: a não ser que esteja a escrever uma novela, lembre-se de utilizar os ganchos com alguma moderação, e apenas em momentos chave, para evitar a perda de impacto da técnica.

    Como todas as ferramentas, o segredo do sucesso é saber onde, quando e como usá-las, para obter os resultados pretendidos. Podemos ter o melhor martelo do mundo, mas de pouco nos servirá se o que precisamos fazer é desenroscar um parafuso.

    Artigo atualizado em Abril de 2024.

    2 comentários em “Ferramentas do Guionista: o Gancho”

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