Como usar mind maps para criar estórias

Qualquer pessoa que se interesse por criatividade provavelmente já ouviu falar nos mind maps. Talvez até já os tenha experimentado em algum momento. Mas será que podem ser utilizados para o desenvolvimento de estórias? O assunto merece alguma exploração.

Um dos problemas que mais assusta todos os criadores, mas particularmente os autores, é o bloqueio criativo. Já escrevi sobre isso antes, mas é sempre interessante re-visitar um tema tão importante e explorar novas abordagens e ferramentas.

Os mind maps, que vou abordar hoje, podem ser uma forma muito simples de desbloquear um momento particular de estagnação criativa. Mas não se ficam por aí; podemos usá-los em várias etapas do desenvolvimento de uma estória, desde o início ou como uma forma de explorá-la sobre diversos pontos de vista.

Vejamos então…

O que é um mind map

Os mind maps, ou mapas mentais, são uma ferramenta de brainstorming que pode ser usada individualmente para criar novas ideias, estabelecer relações entre conceitos, e explorar as ramificações de uma ideia, de uma forma gráfica, estimulante e divertida.

Na sua essência, cada mind map é um exercício de pensamento radiante em que se parte de um conceito ou ideia central para ir acrescentando novas ideias, variações e detalhes em sucessíveis níveis e ramificações.

O que o distingue de um esboço tradicional é que o mind map é feito de uma forma gráfica, usando palavras, imagens, traços e cores para, organicamente, se ir descobrindo novos níveis de complexidade a partir da ideia inicial.

A essência de um mind map.

A criação de um mind map pode ser feita em grupo ou individualmente, usando papel e lápis ou aplicativos próprios. É um processo evolutivo, sequencial mas não linear, adaptável a todos os tipos de pessoas e processos.

O que torna este método tão atrativo e eficaz é que envolve simultaneamente os dois lados do cérebro, o mais criativo e intuitivo ao mesmo tempo que o mais racional e estruturado.

Além disso, o próprio formato e método de desenvolvimento estimula-nos a oscilar permanentemente entre o geral e o particular, a olhar para o diagrama como um todo (a floresta) para logo de seguida mergulhar num detalhe (uma árvore, ramo, folha, fruto…).

O conceito dos mind maps foi criado inicialmente por Tony Busan, um pensador já falecido, como uma forma universal de explorar a inteligência e criatividade. A sua expansão e adopção foi rápida e generalizada, ultrapassando todas as expectativas.

Pensamento radiante

Como fazer um mind map

O processo de criação de um mind map é relativamente simples de explicar e ainda mais fácil de aplicar.

  1. O primeiro passo na criação de um mind map é definir qual o conceito ou ideia central que se vai explorar. Esta deverá ocupar o centro do nosso documento, seja ele uma folha de cartolina ou um ecrã em branco de um aplicativo especializado. Esta ideia central pode ser representada por uma palavra, uma frase ou mesmo uma imagem.
  2. A partir deste centro vamos criar ramais separados para outras ideias ou conceitos que lhe estejam imediatamente associados.
  3. De seguida iremos acrescentar novos ramais ou explorar bifurcações de ramais já existentes, cada vez com mais detalhe.
  4. Isto pode ser feito de várias formas:
    1. Explorando todas as bifurcações de um único ramal de cada vez;
    2. Por camadas, tentando encontrar primeiro todos os ramais de primeiro nível, passando depois às primeiras bifurcações de cada ramal, e assim sucessivamente;
    3. Ou misturando os dois métodos, construindo a estrutura e o conteúdo ao mesmo tempo.
  5. O processo não pode, nem deve, ser “limpo”. Provavelmente será necessário riscar, rasurar, reescrever, combinar, eliminar ou mudar a ordem e posição de ramais, bifurcações, textos, comentários, notas, etc.
  6. Possivelmente chegará até um momento em que será melhor começar novas iterações do documento inicial, fazendo uma versão “limpa” do que já temos, antes de começar a “sujá-la” de novo.
  7. Em casos mais extremos é até possível que a exploração do mind map nos conduza à reformulação, ou mudança, da ideia central. De certa forma, é um processo de vaivém entre o centro e as ramificações, apurando e depurando o todo e as partes, num movimento pendular.
  8. Tudo isto é feito usando palavras e frases, complementadas por linhas e imagens, com muitas cores e um certo sentido lúdico e estimulante, como se de um jogo se tratasse.
  9. Um mind map nunca está realmente terminado, mas podemos parar quando esgotámos os ramais e camadas de bifurcações, e já não temos ideias para novos níveis de complexidade; ou, simplesmente, ao fim do tempo que reservámos para a sua exploração.
  10. Com o mind map nas mãos, podemos passar aos passos seguintes do nosso projeto. Por exemplo, usá-lo como base para criar uma apresentação de projeto ou um documento estruturado de uma forma mais tradicional.
Um mind map em contexto empresarial.

Aplicativos de mind map

O “aplicativo” de criação de mind maps mais simples existe há milhares de anos: papel e lápis. É tudo quanto é preciso para criar um mapa mental perfeitamente funcional e eficaz.

Acrescente-se-lhe dimensão (cartolinas grandes, por exemplo) e cor (canetas de ponta de feltro, lápis de cor ou de cera…) e chegaremos à plenitude do processo – intuitivo, divertido e produtivo.

Mas nos dias que correm é muitas vezes mais prático usar ferramentas informáticas e também aqui não há falta de opções.

Qualquer programa que permita criar caixas de texto e linhas ou setas coloridas para as ligar pode ser usado para criar mind maps. Mas, tal como acontece na escrita de guiões audiovisuais, há programas específicos que tornam o processo muito mais simples e eficiente.

Segue-se uma pequena lista de alguns aplicativos gratuitos a que poderá recorrer para se iniciar nesta prática.

  1. MindMeister (Web, iOS, Android) – um programa disponível online, através do navegador, ou nos telemóveis. É um aplicativo comercial com versão grátis, limitada em alguns aspectos mas suficiente para a maior parte das situações.
  2. bubbl (Web, Android, iOs) – também comercial com versão grátis limitada.
  3. Coggle (Web, Android, iOs) – as mesmas opções e modelo de preços que os anteriores.
  4. Mindomo (Web, Windows, macOS, Android and iOS) – semelhante, mas inclui também aplicativos para MacOS e Windows)
  5. XMind (Web, Windows, macOS, Android and iOS) – mesmas opções e modelo de preços, com a vantagem de não ter limite ao número de mapas que se podem criar na versão livre.

Como todos estes aplicativos têm uma versão grátis, pode experimentar mais do que um até encontrar o que melhor se adapta ao seu estilo e necessidades.

Um dos melhores aplicativos online é o MindMeister.

Como aplicar os mind maps às nossas estórias

Um mind map pode ser usado de inúmeras formas no contexto da criação de narrativas de ficção. Vejamos alguns exemplos, mas com certeza qualquer autor será capaz de encontrar muitos outros.

  • Para procurar ideias – coloque um ponto de interrogação no centro da página e comece a escrever sementes de ideias. Normalmente isso será um personagem, um evento ou um mundo que gostaria de explorar. Depois, comece a estabelecer ligações entre algumas destas sementes e a criar novas ideias, talvez um pouco mais desenvolvidas. Por exemplo, se tinha anotado “uma ordem religiosa misteriosa” e “alguém luta contra o Diabo” e ainda “artes marciais”, talvez chegasse a “uma freira guerreira em luta contra os enviados do inferno”.
  • Para desenvolver os personagens – coloque o nome do seu personagem no centro da página e crie alguns ramais para, por exemplo, “Físico”, “Psicológico”, “Familiar”, “Social” e “Antecedentes”. Depois, explore esses diferentes ramais, sequencialmente ou em simultâneo, saltando de um para o outro. Por exemplo, se no ramal “Físico” definiu o seu Antagonista como sendo maneta, pode saltar para os “Antecedentes” e descrever o episódio do seu passado em que perdeu a mão.
  • Para criar um mapa de relações – os mind maps são perfeitos para desenvolver esta ferramenta, sobre a qual já escrevi. Para ter uma ideia mais completa do processo, leia este artigo.
  • Para resolver um plot point – coloque no centro da página o momento do seu enredo que ainda não conseguiu resolver. Por exemplo, “Clímax”, em grandes letras vermelhas. De seguida comece a rodeá-lo com ramais referentes a diferentes opções: “Locais”, “Antagonistas”, “Situações”, etc. Vá explorando opções em cada ramal, e criando novos ramais quando necessário. Mantenha-se atento a possíveis ligações promissoras entre os diferentes ramais. Por exemplo, se tinha anotado algures “Igreja”, noutro local “Batizado” e noutro ainda “Vingança”, pode estar no caminho para escrever uma das melhores cenas de sempre do cinema americano.
  • Para criar uma bíblia de uma série de TV – coloque no centro da página o nome da sua série. Abra ramais, por exemplo, para “Sinopse”, “Personagens”, “Mundo”, “Tom e Estilo” e “Episódios”. A partir daí, crie novas ramificações: uma para cada personagem; uma para cada episódio; referências visuais para o tom e estilo, etc. Abra novos ramais, se necessário (por exemplo, “Próximas Temporadas”). Vá alternando entre a visão geral e os detalhes para avaliar se a apresentação está completa e coerente. E prepare-se para o sucesso mundial.
Será que começou num mind map?
  • Para desenvolver uma estória – finalmente, pode usar um mind map para dar os primeiros passos na concepção de uma longa-metragem (ou outra narrativa qualquer…). É verdade que há escritores que abominam a ideia de planear uma estória antes de a escrever, mas para aqueles que, como eu, não conseguem colocar uma palavra na página antes de ter uma ideia geral de tudo o que vai acontecer, o mind map pode ser muito útil. Vou apresentar em seguida um hipotético passo-a-passo de um tal processo.
  • Coloque o título da estória, e talvez a sua storyline, no centro da página.
A ideia ou conceito no centro de tudo.
  • Abra ramais para “Personagens”, “Trama”, “Mundo” e “ADN”.
Os primeiros ramais.
  • Comece a desenvolver esses ramais. Por exemplo, no Personagem crie bifurcações para “Protagonista”, Antagonista” e “Complementares”. Em ADN pode criar “Género”, “Tom”, “Tema” e “Estilo”, e assim por diante.
  • Siga criando novas bifurcações e tomando notas, fazendo listas de ideias, acrescentando imagens e referências visuais, etc., até começar a ter uma ideia mais clara da estória que está a criar. Faça e refaça o seu mind map até estar satisfeito com o resultado para esta fase do processo criativo. Não se esqueça que o excesso de planeamento é uma forma subtil de procrastinação.
  • Finalmente, exporte toda essa informação (se trabalhou no computador) para um formato que lhe permita continuar para as fases seguintes do seu trabalho: escrever um tratamento ou uma escaleta, por exemplo, ou passar mesmo à escrita de uma primeira versão.

Como é óbvio, este passo-a-passo não é obrigatório. Cada autor irá criar o seu próprio modelo de mind map não só de acordo com o seu estilo, temperamento e formação, como até das características de cada projecto. Por exemplo, uma estória de época pode ter um ramal dedicado à cronologia desse período, e outro a hábitos e costumes estranhos; uma obra de ficção científica pode ter um ramal para a tecnologia, e assim por diante.

Conclusão

Os mind maps são uma ferramenta muito útil para criar novas ideias e estabelecer relações entre outras já existentes.

Ao envolver simultaneamente os hemisférios esquerdo e direito do nosso cérebro, estimulando a criatividade mas também a organização, os mapas mentais abrem novas avenidas de pensamento que podem ser muito eficazes e produtivas em diferentes fases do processo de criação de uma estória.

Se depois de brincar um pouco com os mind maps se tornar um adepto deste processo, tenho a certeza de que vai encontrar muitas outras aplicações possíveis dentro deste imenso universo do storytelling.

Fotografia de capa de Jan Canty em Unsplash

Foto adicional de Joshua Sortino em Unsplash

João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller apaixonado por contar estórias e ajudar outras pessoas e marcas a contar as estórias delas. Divide o seu tempo entre Portugal, Brasil e Angola, tendo já escrito mais de 3500 páginas de guiões produzidos de longas metragens, telefilmes, séries de televisão e curtas.

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