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OS ESPÍRITOS DE INISHERIN: UMA ESTRUTURA CLÁSSICA?

    Martin McDonagh, o autor de um dos meus filmes favoritos, In Bruges, voltou à carga com um novo filme, Os Espíritos de Inisherin. É uma obra provocadora e deliciosa que, com nove nomeações, está muito bem posicionada para os Óscares deste ano, incluindo o de Argumento Original.

    O curioso é que McDonagh é um professo crítico das fórmulas estruturais e do planeamento prévio da escrita, contrariando muitas das ideias e práticas que apresento (e preconizo) nas páginas deste site.

    Isto deveria deixar-me preocupado – ou talvez não? Será que há forma de conciliar essas duas perspectivas sobre a arte narrativa?

    Vamos descobrir.

    Importante! A partir daqui há spoilers. Se ainda não viu o filme, é melhor parar de ler.

    McDonagh E A ESCRITA

    Num artigo do blogue expliquei em tempos a minha teoria de que há dois tipos de autores: os “paisagistas”, que planeiam as estórias com antecedência, e os “jardineiros” que se deixam conduzir pela inspiração sem qualquer planeamento prévio.

    McDonagh tem deixado bem clara a sua posição sobre em que campo se insere, em diversas declarações recolhidas ao longo dos anos. Por exemplo, num vídeo da revista Variety, na série “Directors on Directors”, explicou a Taylor Swift o que pensa do planeamento (ou falta dele):

    Nunca planeio um guião com antecedência. Nunca faço um tratamento e nunca sei o que vai acontecer de cena para cena. Fiquei um pouco chocado quando Colm entrou no pub e fez aquela ameaça. Mas depois de acontecer, isso atirou tudo ao ar, e qualquer coisa podia acontecer a seguir.

    A mesma ideia já tinha sido apresentada numa outra entrevista a propósito do seu filme Três cartazes à beira da estrada.

    Nunca planeio antes, nunca escrevo um tratamento. Deixo sempre os personagens falarem uns com os outros. Nos primeiros dias tento imaginar as características dessas pessoas, ou algum tipo de voz; idiossincrasias, esse tipo de coisas. Limito-me a deixá-los falar e a começarem a agir. Os personagens criam-se a si mesmos, quase, e eu deixo a estória acontecer à volta deles. Não tento impor uma estória aos personagens, mas sim o inverso.

    A sua posição em relação às fórmulas dos gurus da escrita também é clara. Numa entrevista à revista Deadline, ele afirmou que essas fórmulas “São tretas. Não há qualquer satisfação nisso. Pode ser aceitável se… Não, não é aceitável mesmo que estejas a começar, porque é tudo uma fórmula, e fórmulas são chatas como o caraças. É por isso que acabamos com filmes da Marvel e DC todas as semanas, em que sabemos exactamente o que vai acontecer. É apenas, tipo, ‘Que efeito de computador é que nos vai levar lá desta vez?

    Um filme que não segue fórmulas… ou seguirá?

    E apesar disso…

    Como é que, apesar deste repúdio pelas fórmulas e pelo planeamento prévio, Martin McDonagh é um dos mais sólidos construtores de estórias de modelo clássico a escrever atualmente?

    O seus guiões respeitam quase escrupulosamente tudo o que gurus como Sid Field ou Robert McKee afirmam fazer parte de um modelo narrativo clássico, que eu apresento no meu curso básico de guião.

    Para mim, não há qualquer contradição entre essas duas posições.

    Os filmes de McDonagh demonstram que o respeito, consciente ou inconsciente, pelo modelo clássico de estrutura narrativa não é um impedimento para a originalidade de temas e de forma, nem um exclusivo dos filmes mais comerciais.

    Pelo contrário, é uma forma de dar solidez e impacto aos conceitos narrativos mais desafiantes, como os que costumam estar no centro das estórias de McDonagh.

    O seu guião para Os Espíritos de Inisherin é a prova disso. Vejamos então uma pequena análise da estrutura desse filme, que espero que sirva de demonstração desta tese.

    Já avisei dos spoilers, não avisei? Então continue a ler por sua conta e risco.

    A estrutura de Os Espíritos de Inisherin

    Os Espíritos de Inisherin é um exemplo perfeito de como a estrutura narrativa clássica pode ser aplicada a um filme de personagens, original e provocador, de um autor que assumidamente não escreve nem tratamentos nem escaletas.

    É uma estória simultaneamente divertida e negra, passada numa ilha irlandesa em 1923, com a guerra civil por pano de fundo.

    A ideia central do filme é o inesperado fim da amizade entre Colm (Brendan Gleeson), um músico mais velho deprimido pelas limitações da vida na ilha, e Padraic (Colin Farrell), um criador de gado de boa índole mas com ambições mais prosaicas. O afastamento entre os dois homens dá início a uma escalada de situações com consequências inesperadas e devastadoras.

    Dois outros personagens constroem duas tramas secundárias importantes, ligadas tematicamente pela ideia do isolamento e da solidão: Siobhan (Kerry Condon), a irmã de Padraic, e Dominic (Barry Keoghan), o filho problemático e abusado do polícia local.

    Vejamos então os momentos centrais da estória:

    • Começamos por conhecer um pouco da rotina diária de Padraic na pequena ilha de Inisherin, que envolve a sua irmã Siobhan e as tardes no pub local na companhia do seu amigo Colm.
    • Esse aparente equilíbrio cai estrondosamente por terra quando Colm declara que já não gosta de Padraic, sem dar nenhuma explicação para isto. Este evento detonador (o inciting incident da estória) acontece na página 7, bem dentro do expectável, e lança a questão dramática central da estória: será que Colm e Padraic vão voltar a ser amigos?
    • Como é frequente em muitas estórias, Padraic começa por recusar aceitar esta nova situação. Chega mesmo a acreditar que a conversa de Colm foi apenas uma partida de primeiro de Abril.
    • Nesta fase da estória são-nos também apresentados outros personagens, como Dominic, um jovem um pouco estranho; o pai de Dominic, o polícia local; Jenny, uma burra-anã que terá um papel importante no enredo; e a velha Mrs. McCormick, uma espécie de bruxa da ilha.
    • Começamos também a conhecer melhor a irmã, Siobhan. Esta é uma leitora ávida para quem a vida na ilha poderá não ser o suficiente.
    • Padraic tenta nova aproximação a Colm, mas este finalmente dá-lhe uma explicação: sente que o seu tempo está a fugir e prefere aproveitá-lo melhor, a compor músicas, do que gastá-lo em conversas inúteis com Padraic.
    • Padraic fica ofendido e de mau humor, mas não desiste. A irmã confronta Colm por causa da sua decisão, e até o padre intercede por Padraic durante a confissão.
    • Viragem para o 2º ato: irritado com a insistência de Padraic, Colm faz uma promessa radical: se Padraic continuar a insistir na sua amizade, vai cortar um dedo da sua mão esquerda, a que usa para tocar violino. A ameaça apanha todos de surpresa e lança a estória claramente numa nova direção. E acontece na página 31 do guião, mesmo no limite do que Sid Field preconiza.
    • Padráic fica um pouco perdido, sem conseguir entender Colm. Para ele a vida era simples e perfeita até poucos dias antes. O clima reflete a depressão de Padraic, com chuvas e tempestades.
    • As subtramas desenvolvem-se, nomeadamente a que envolve Dominic e o pai, e a solidão de Siobhan.
    • Finalmente, depois de ver Colm divertir-se com alguns estudantes de música, Padraic não consegue aguentar mais. Embebeda-se e confronta o ex-amigo no pub.
    • Arrependido, procura-o de novo no dia seguinte para lhe pedir desculpa.
    • Essas duas ações juntas – a bebedeira e o pedido de desculpas – levam Colm a cumprir a promessa de cortar um dedo, que atira contra a porta de Padraic, sem palavras nem mais explicações. Esta sequência decorre mais ou menos no meio do guião, criando o seu Ponto Médio, outra característica das “fórmulas” de estrutura.
    • A descoberta do dedo amputado é um enorme choque para Padraic e Siobhan, que percebem que Colm está mesmo sério na sua intenção de se afastar de Padraic.
    • Siobhan devolve o dedo a Colm e promete que Padraic se vai manter longe. Percebemos que Siobhan partilha a sua tristeza e desespero em relação à pequenez da vida na ilha, um sentimento nuclear para a sua própria subtrama.
    • A tristeza domina a vida de Padraic, levando-o até, em desespero, a inventar uma mentira para afastar um dos estudantes de música com quem Colm tem uma boa relação. É mais um passo no arco de transformação de Padraic que, pouco a pouco, se vai tornando numa pessoa pior.
    • Três subtramas avançam nesta fase da estória: Mrs. McCormick, a bruxa local, profetiza que uma, ou até duas mortes, irão ocorrer na ilha antes do fim do mês. Siobhan troca correspondências misteriosas com alguém na ilha grande da Irlanda e faz algum tipo de planos. E o jovem Dominic convence Padraic de que talvez Colm aprecie uma personalidade mais afirmativa e decidida.
    • O mesmo Dominic declara-se mais tarde a Siobhan, que gentilmente o recusa. Isso destrói mais um sonho do rapaz, possivelmente o seu último reduto de esperança.
    • Padraic, contra toda a lógica do mundo, mas perfeitamente convicto da sua própria razoabilidade, confronta novamente Colm, pensando que o ex-amigo apreciará esta sua nova personalidade mais afirmativa.
    • E isto conduz-nos ao momento mais negro, que marca o final do 2º ato: Siobhan anuncia a Padraic que vai deixar a ilha para aceitar uma oferta de trabalho na Irlanda, numa conversa que coincide com a descoberta de que Colm cortou mais quatro dedos da sua mão esquerda, inutilizando-a por completo.
    • Passagem ao 3º ato: Para piorar a situação, a burra anã de Padraic, por quem ele tem um enorme paixão, morre engasgada com um dos dedos de Colm.
    • Isto leva Padraic a lançar ele próprio um ultimato desesperado. Procura Colm para lhe anunciar, em frente às testemunhas do pub local, que no domingo seguinte, depois da missa, irá pegar fogo à sua casa, esteja ele ou não lá dentro.
    • A missa acontece de novo, com todos os olhos colocados em Padraic.
    • E daqui seguimos para o clímax da estória: Padraic incendeia a casa de Colm, mesmo vendo que o ex-amigo está sentado lá dentro, a fumar calmamente. Tem, no entanto, um último ato de decência, levando consigo a cadela de Colm, de quem passa a cuidar.
    • E concluímos, muito classicamente, com o dénouement. No dia seguinte, Padraic encontra Colm na praia, ainda vivo. O músico parece ter ultrapassado as suas tendências suicidas, e até quer fazer as pazes com o ex-amigo, mas agora é Padraic que recusa. Os dois separam-se, deixando tudo em aberto para o futuro.
    • Fecham-se também as outras tramas: Siobhan, feliz na sua nova vida, escreve para convidar o irmão a juntar-se a ela. Na resposta de Padraic percebemos que ele nunca irá deixar a ilha, e somos informados da morte por afogamento de Dominic, possivelmente um suicídio, que cumpre a profecia da velha Mrs. McCormick.

    Desta forma, Os Espíritos de Inisherin terminam preenchendo todos os pontos-chave de uma estória de modelo clássico, numa estória que de clássico pouco ou nada tem.

    Conclusão

    O filme Os Espíritos de Inisherin é mais uma demonstração de que as “fórmulas” de gurus como Field ou McKee não são realmente fórmulas, mas sim resumos funcionais dos elementos constituintes de uma forma natural de contar estórias.

    A partir destes mesmos elementos um bom guionista como Martin McDonagh vai, intencional ou espontaneamente, escrever uma boa estória, imaginativa e surpreendente, enquanto um guionista menos capaz irá conseguir apenas criar uma estória mecânica e previsível.

    O problema não está então nas “fórmulas”, mas na nossa capacidade de aplicá-las com arte e sinceridade. Coisa que McDonagh, apesar da sua repulsa por elas, faz com excelência clássica.

    Leia aqui o guião de Os Espíritos de Inisherin (em inglês).

    Veja neste vídeo a conversa entre Martin McDonagh e Taylor Swift que citei no início.

    João Nunes é um argumentista, storyteller e consultor criativo que adora contar estórias e ajudar outras pessoas e marcas a contar as estórias delas.

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