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Grandes Diálogos: Nós peneiramos pessoas, de “Dune”

    Agora que estreou o filme Dune: Parte 2, que será seguramente um dos filmes do ano (e uma experiência inesquecível se o conseguir ver em Imax), aproveito para recordar uma cena crucial do Dune de 2021.

    No guião, escrito por Jon Spaiths e Denis Villeneuve e Eric Roth, baseado no livro Dune de Frank Herbert, esta cena estende-se entre as páginas 24 e 29. É, pois, uma cena relativamente longa, e muito próxima à versão original do romance.

    A principal diferença é que no livro temos acesso ao que vai dentro da cabeça do protagonista, o jovem Paul Atreides, e é ele quem recita a famosa Ladainha contra o Medo como forma de combater a dor que lhe é infligida no teste.

    No guião, e no filme, os autores optaram por não usar qualquer recurso de introspecção, e é a mãe de Paul, Jessica, quem reza essa prece em voz alta, enquanto espera que termine o teste potencialmente mortal que está a ser feito ao filho.

    Esta cena encerra o 1º ato da estória, passado no planeta Caladan, já que na cena seguinte se processa de forma muito rápida a transição para Arrakis, o “mundo especial” de Dune, onde Paul fará toda a sua Viagem do Herói.

    Como tantas outras cenas de viragem (plot point ou turning point) do 1º para o 2º ato, também esta inclui um “guardião da passagem”. Neste caso é a Reverenda Mãe Mohiam, que segura nas mãos – literalmente – a vida de Paul.

    Esta cena tem ainda um motivo de interesse adicional, na forma como está escrito. É um excelente exemplo do uso de Cabeçalhos Secundários e de Insertos para intercalar pequenas cenas adjacentes à cena principal sem ter de abrir novas cenas, que complicariam muito a fluidez da leitura.

    Mas chega de spoilers, vamos à cena (tradução de minha responsabilidade):

    INT. BIBLIOTECA – NOITE

    Jessica leva Paul até à biblioteca -- prateleiras de madeira repletas de livros antigos. Luzes suspensas flutuam na penumbra.

    Paul está perplexo sobre o propósito deste despertar à meia-noite.

    Encontra a REVERENDA MÃE MOHIAM à espera deles. Está sentada numa cadeira de madeira maciça, o seu rosto envelhecido pálido contra o seu manto negro. Os seus olhos brilham enquanto ela o estuda.

    Jessica faz uma cortesia à velha mulher. Paul fica surpreendido com esta submissão da sua mãe. Estuda a Reverenda Mãe.

    Ela avalia-o por sua vez. A sua postura. O seu olhar.

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    Desafio nos olhos. Como o pai dele.

    (para Jessica)

    Deixa-nos.

    Jessica vira-se para sair, relutantemente. Pára junto a Paul.

    JESSICA

    Tens de fazer tudo o que a Reverenda Mãe te disser.

    Sai apressada. Paul olha fixamente para a Reverenda Mãe.

    PAUL

    Dispensas a minha mãe em sua própria casa.

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    VEM AQUI.

    O comando soa como um chicote, a sua voz subitamente mais que humana. Compelindo uma obediência irresistível. Esta é A VOZ. Paul atravessa a sala em direção a ela, incapaz de resistir. Abalado.

    REVERENDA MÃE MOHIAM (CONT.)

    AJOELHA-TE.

    Paul luta para permanecer de pé – mas não consegue resistir ao comando. Ajoelha-se diante da velha mulher.

    PAUL

    Como te atreves a usar a Voz comigo?

    Ela retira um cubo de metal verde, com 15 centímetros de altura, das pregas dos seus mantos. Coloca-o no braço da sua cadeira. Um lado abre-se para um interior negro que nenhuma luz pode iluminar.

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    Coloca a tua mão direita na caixa.

    Fala agora com uma voz normal. Paul não obedece.

    REVERENDA MÃE MOHIAM (CONT.) A tua mãe ordenou-te que me obedecesses.

    A invocação da sua mãe move-o. Relutantemente, Paul coloca a mão na caixa. A velha mulher inclina-se para a frente, colocando a sua mão ao lado do pescoço de Paul. Um brilho de metal. Ele começa a virar a cabeça --

    REVERENDA MÃE MOHIAM (CONT.)

    PÁRA.

    Ele congela. Respirando com dificuldade. Vemos uma longa AGULHA reluzente, firme na mão da velha mulher. Quase lhe tocando.

    REVERENDA MÃE MOHIAM (CONT.)

    Tenho junto ao teu pescoço o gom jabbar. Uma agulha envenenada. Morte instantânea. Este teste é simples. Retira a tua mão da caixa, e morres.

    PAUL

    O que há na caixa?

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    Dor.

    Paul olha para ela incrédulo. Isto é loucura.

    REVERENDA MÃE MOHIAM (CONT.)

    Não há necessidade de chamar os guardas. A tua mãe está do lado de fora dessa porta.

    FORA DA PORTA

    Jessica está de costas para a porta como uma sentinela.

    REVERENDA MÃE MOHIAM (V.O.)

    Ninguém a ultrapassará.

    O rosto de Jessica está tenso de terror. A vida do seu filho está em jogo. Ela começa a sussurrar a Ladainha contra o Medo:

    JESSICA

    Não devo temer. O medo é o assassino da mente. O medo é a pequena morte que leva à aniquilação.

    NA BIBLIOTECA

    Paul olha apreensivamente para a Reverenda Mãe. E subitamente sente: uma sensação de formigamento nos dedos que o faz prender a respiração. Sibila de dor.

    PAUL

    Por que estás a fazer isto?

    REVERENDA MÃE MOHIAM Um animal apanhado numa armadilha roerá a própria perna para escapar. O que farás?

    FORA DA PORTA

    A voz de Jessica treme enquanto ela sussurra a Ladainha.

    JESSICA

    Enfrentarei o meu medo. Permitirei que ele passe por cima de mim e através de mim.

    NA BIBLIOTECA

    O suor brota na testa de Paul à medida que a dor se transforma em agonia. Ele geme entre dentes cerrados. A sua mão esquerda fecha-se num punho branqueado de tanto apertar, o seu braço a tremer. Dor!

    FORA DA PORTA

    Jessica fecha os olhos.

    JESSICA (CONT.)

    E quando ele tiver passado, voltarei o olhar interior para ver o seu caminho.

    NA BIBLIOTECA

    Paul treme. O gom jabbar reluz contra seu pescoço. Os olhos da Reverenda Mãe queimam-no. Está ofegante.

    INSERTO: A mão de Paul dentro da caixa. Como uma mão numa fogueira. A pele escurecendo. Rachando.

    Paul GRITA involuntariamente. A Reverenda Mãe sibila:

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    Silêncio!

    FORA DA PORTA

    A voz de Jessica aumenta --

    JESSICA

    Onde o medo foi não haverá nada!

    NA BIBLIOTECA

    Paul treme de dor excruciante. Olhando nos olhos da velha Reverenda Mãe. No limite da sua resistência.

    INSERTO: A mão de Paul. Carne queimada caindo dos ossos carbonizados.

    Paul fecha os olhos. A sua boca abre-se num grito silencioso.

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    Chega!

    A dor cessa imediatamente. Os olhos de Paul abrem-se com um suspiro.

    FORA DA PORTA

    Jessica abre os olhos.

    JESSICA

    Só eu restarei.

    NA BIBLIOTECA

    A Reverenda Mãe encara Paul enquanto ele suspira aliviado: suado, respirando com dificuldade.

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    Nenhuma mulher-criança suportou tanto. Devo ter desejado que falhasses.

    REVERENDA MÃE MOHIAM (CONT.)

    Retira a tua mão da caixa, rapaz, e olha para ela.

    Relutantemente, Paul obedece -- certo de que verá um coto arruinado. Mas a sua mão está intacta. Ele mexe os dedos, espantado.

    REVERENDA MÃE MOHIAM (CONT.)

    Dor por indução nervosa.

    Ele olha para ela, a sua curiosidade superando a sua raiva. A Reverenda Mãe sorri, escondendo a caixa nos seus mantos.

    REVERENDA MÃE MOHIAM (CONT.)

    É como peneirar areia através de uma peneira. Nós peneiramos pessoas. Se não fosses capaz de controlar os teus impulsos, como um animal -- não poderíamos deixar-te viver. Herdas demasiado poder.

    PAUL

    Por ser filho de um Duque?

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    Por seres filho de Jessica. Tens mais de um direito de nascimento, rapaz. Provaste que te podes governar a ti mesmo. Agora deves aprender a governar os outros. É algo que nenhum dos teus antepassados aprendeu.

    PAUL

    O meu pai governa um planeta inteiro.

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    E está a perdê-lo.

    PAUL

    Está a ganhar um planeta mais rico!

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    Veremos.

    Paul olha para ela, desconcertado. O que quer ela dizer?

    FORA DA PORTA

    Jessica está rígida, serena. Esperando.

    REVERENDA MÃE MOHIAM (O.S.) (CONT.)

    Jessica!

    Jessica entra, o medo estampado no rosto. Ao ver Paul, o seu rosto ilumina-se de alívio.

    REVERENDA MÃE MOHIAM (CONT.)

    A tua mãe foi testada assim, quando tinha a tua idade.

    Paul sente a presença da sua mãe atrás dele.

    REVERENDA MÃE MOHIAM (CONT.)

    Fala-me sobre esses sonhos.

    Paul hesita. Esta velha mulher conhece todos os seus segredos.

    PAUL

    Tive um esta noite.

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    O que viste?

    INSERTO: O rosto luminoso da rapariga dos seus sonhos.

    PAUL

    Uma rapariga. Em Arrakis.

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    Já sonhaste com ela antes?

    PAUL

    Muitas vezes.

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    Sonhas coisas que acontecem exatamente como sonhaste?

    PAUL

    Não exatamente.

    (ALTERNATIVA)

    Às vezes.

    A Reverenda Mãe levanta-se, olha para Paul com olhos brilhantes.

    REVERENDA MÃE MOHIAM

    Adeus, jovem humano. Espero que vivas.

    Sai, seguida por Jessica. Ficamos com Paul.

    Leia o resto do guião aqui. É uma lição de adaptação literária onde se pode aprender muito.

    https://assets.scriptslug.com/live/pdf/scripts/dune-2021.pdf

    Veja um vídeo em que o realizador e co-argumentista Denis Villeneuve descreve todo o processo de rodagem desta cena:

    Veja aqui a cena (incompleta):

    E, por curiosidade, compare-a com a mesma cena no filme de 1984, de David Lynch. É mais fiel em alguns aspectos, por exemplo no facto de ser Paul a recitar a Ladainha contra o Medo, mas mesmo assim prefiro a versão de 2021.

    E para terminar, deixo o trailer da versão de Dune que nunca chegou a ser feita mas que provavelmente seria a mais espantosa de todas (ou um fracasso estrondoso):

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