Qual a diferença entre Protagonista, Personagem principal, Herói e Narrador

Uma estória é, muito resumidamente, uma combinação criativa de eventos que envolvem um número limitado de personagens para obter alguma resposta emocional.

Mas nem todos os personagens têm o mesmo peso na estória; alguns destacam-se o suficiente para serem considerados os seus Protagonistas.

Num artigo que escrevi sobre esse tema, no meu Curso de Guião, propus a seguinte definição para o Protagonista:

“O protagonista é o fio condutor da estória que estamos a presenciar no ecrã, o alter ego dos espectadores no desenrolar daqueles acontecimentos que decidimos contar”.

Na grande maioria dos casos, esta definição está correta.

Mas, como em tudo o que se refere à arte e técnica da escrita audiovisual, há sempre excepções. E, neste aspecto concreto, estas são suficientemente importantes para merecer uma análise mais detalhada.

Especificamente, há muitas situações em que o personagem que é “o fio condutor da estória” não coincide com o personagem que é “o alter ego dos espectadores“.

Nesses casos, como devemos identificar cada um?

Além disso, se introduzirmos na equação os conceitos de “herói“, usado também muitas vezes como sinónimo de protagonista, e o de “narrador“, o personagem que conta a estória, a confusão é ainda maior.

Vejamos então como é que eu distingo estas situações, e porque é que essa distinção pode ser útil e importante.

Protagonista e Personagem Principal

O termo Protagonista tem origem no teatro grego antigo, como tantas outras coisas relacionadas com a arte dramática. Descende da palavra protagonistes que, por sua vez, nasce da junção de protos, que significa “primeiro”, com agonistes, que quer dizer “ator”.

O protagonistes era, assim, o primeiro ator, ou seja, o ator que desempenhava o papel principal de uma peça de teatro.

Esse significado mantém-se no essencial: podemos dizer que numa estória o Protagonista é o personagem que tem o papel principal.

Concretamente, é o personagem que faz o enredo da estória avançar, normalmente ao perseguir um determinado objetivo de grande importância dramática.

É também, muitas vezes (mas nem sempre), o personagem que mais se transforma em função do desenrolar dos eventos.

A situação mais vulgar é que os espectadores acompanhem esses eventos pelo olhar do próprio Protagonista. Neste caso este será também o Personagem Principal da estória.

Encontramos um exemplo num filme que escrevi com o guionista Izaías Almada, A Selva. O personagem Alberto é simultaneamente o motor da estória e o personagem cujo olhar os espectadores são convidados a adotar para a acompanhar.

Mas há situações em que isso não acontece.

Por exemplo, no filme O Sexto Sentido nós testemunhamos toda a estória pelos olhos do psicólogo Malcolm Crowe, mas o personagem que a faz avançar é o jovem Cole Sear, o miúdo que a certa altura lhe/nos confessa: “Eu vejo pessoas mortas“.

Neste caso, há uma separação muito clara entre as duas funções dramáticas descritas mais acima: Cole será o Protagonista, o fio condutor da estória; e Malcolm o Personagem Principal, aquele que está mais perto do espectador.

Outro exemplo que me é muito querido: no filme Os Condenados de Shawshank Andy é claramente o Protagonista, pois é ele que faz avançar o enredo narrativo, virando do avesso a vida no estabelecimento prisional onde é encarcerado, até à sua memorável fuga.

Mas nós, enquanto espectadores, vivenciamos o impacto de Andy na vida da prisão principalmente através do personagem Red, o seu primeiro amigo no local. Red será, assim, o Personagem Principal da estória.

Curiosamente, este filme tem uma espécie de 4º ato, que se segue à fuga de Andy, em que Red se assume simultaneamente como Protagonista e Personagem Principal, conduzindo o resto da estória até à reunião final dos dois.

Vejamos, então, duas possíveis definições que resumem o que acabei de explicar:

Protagonista é o personagem cujas ações em perseguição de um objetivo central mais contribuem para a progressão dramática da estória. É também, muitas vezes, o personagem que mais se transforma em consequência das suas escolhas.

Personagem Principal é um personagem envolvido diretamente na estória, e por ela afetado, através do qual o espectador acompanha a maior parte dos eventos narrados. É frequente que o Personagem Principal seja o próprio Protagonista, mas nem sempre é assim.

Protagonista e Personagem Principal.

E o Herói?

Quando descrevemos uma estória, especialmente as que seguem um modelo mais clássico, muitas vezes referimo-nos ao seu Protagonista como “o Herói”.

Em grande parte dos casos esta identificação é fácil e natural. Mas, na realidade, o Herói é apenas um dos modelos possíveis de Protagonistas.

No livro Writing for Emotional Impact o guru Karl Iglesias aponta quatro tipos diferentes de Protagonistas:

  • O Herói – o personagem aventureiro, ativo, corajoso, positivo, melhor do que nós em (quase) todos os aspetos. Não é quem nós somos, é quem gostaríamos de ser. Exemplo: Indiana Jones, em qualquer dos seus filmes.
  • A Pessoa Normal – o cidadão comum, igual a nós, que é atirado por algum incidente para circunstâncias excepcionais. É o tipo de Protagonista com quem nos identificamos mais facilmente. Exemplos: o já citado Andy, em Os Condenados de Shawshank, ou Ben, em O Estagiário. Até Frodo, de O Senhor dos Anéis, pode ser enquadrado aqui, apesar de ser um Hobbit.
  • O Desfavorecido – o personagem que tem tudo contra ele e começa a estória já em desvantagem. Não nos sentimos iguais a ele, nem o quereríamos ser, mas essa sua “inferioridade” torna a sua luta e superação ainda mais simpática e admirável. Exemplos: Rocky Balboa, na série de filmes do mesmo nome, ou Michael, em Tootsie.
  • O Anti-Herói – o personagem sombrio, perturbado, às vezes claramente negativo. Não gostaríamos de o ter nas nossas relações mas não conseguimos tirar os olhos dele. Exemplos: Michael Corleone, em O Padrinho, ou Arthur, em Joker.

A situação mais comum, como já referi, é que Herói, Protagonista e Personagem Principal sejam o mesmo personagem. Mas, como começamos a perceber, nem sempre isso acontece.

Todas estas divisões teóricas devem ser entendidas, a bem da arte, não como como botões de ligar/desligar, mas como comandos de volume, que nos dão a possibilidade de misturar vários graus de intensidade.

Vejamos o exemplo do personagem Max, na série de filmes Mad Max. No 1º filme é o Protagonista, uma Pessoa Normal (num mundo definitivamente anormal) com um toque de Herói que se vai tingindo de Anti-Herói.

No segundo e terceiro filmes o lado de Anti-Herói é um pouco mais acentuado, juntamente com o de Desfavorecido, até o lado de Herói se ir impondo gradualmente.

Por fim, no recente Mad Max: Fury Road, a evolução é ainda mais curiosa. Max passa a Personagem Principal, cedendo o lugar de Protagonista à personagem Furiosa.

Protagonista e Personagem Principal.

Já que estamos a falar nisso, o que é o Narrador?

Há muitas estórias que são contadas por um personagem que nem é o motor da estória nem é particularmente afetado pela sua evolução. Nesse caso, esse personagem não pode ser considerado como Protagonista nem como Personagem Principal.

É apenas um Narrador.

Este Narrador pode ter diferentes níveis de participação na estória. Em alguns casos é completamente distanciado dela, como a do Avô que conta uma estória a um neto doente, em The Princess Bride.

Noutros têm um pouco mais de envolvimento, como o miúdo selvagem de Mad Max II, que tem uma participação limitada nos eventos mas que só no final percebemos ser o seu Narrador.

Em qualquer dos casos, a sua função é claramente distinta das que analisámos antes.

O Narrador é um personagem através do qual acompanhamos uma estória mas que não tem nela uma função importante nem é impactado de forma evidente pelo seu curso .

Muitas vezes a forma como a sua narração se manifesta é através de, ou começa com, uma Voz Off.

É o que acontece no filme A Selva, que já mencionei. Nesse guião, o personagem Alberto é simultaneamente Protagonista (embora não seja um Herói), Personagem Principal e Narrador.

EXT. PARAÍSO -- DIA

Vista aérea que começa sobre ALBERTO ajoelhado ao lado de FIRMINO; a câmara sobe e afasta-se revelando GUERREIRO abraçado a D. YÁYÁ; depois os OUTROS HOMENS que se aproximam lentamente; e finalmente a casa em escombros; antes de se perder sobre o rio imenso...

EXT. RIO MADEIRA -- DIA

... onde a vista aérea continua, revelando o “Justo Chermont” que navega rio Madeira abaixo, em direcção ao Amazonas.

ALBERTO (V.O.)

A minha estadia em Paraíso prolongou-se por mais algum tempo, até as autoridades esclarecerem as mortes de Juca, Velasco e Firmino num incêndio.

ALBERTO está encostado à amurada do barco, olhando a selva que chega até às margens do rio.

ALBERTO (V.O.)

Recebi notícias de casa. Tinha sido amnistiado. Já podia regressar a Portugal.

Alberto vê uma pequena CANOA parada no meio do rio, à distância. Uma FIGURA está de pé na canoa.

ALBERTO (V.O.)

Firmino, o senhor Guerreiro, Tiago -- até D. Yáyá -- juntaram-se pouco a pouco aos fantasmas do passado.

O “Justo Chermont” cruza-se com a canoa. A figura estática, de pé, é um VELHO ÍNDIO enrugado. Tem o CHAPÉU de Alberto.

ALBERTO (V.O.)

A selva, contudo, nunca mais saiu do meu coração.

Razões para separar o Protagonista do Personagem Principal

Coloca-se, então, uma questão: porquê complicar as coisas, separando todas estas funções? Não é mais simples se nos limitarmos à solução mais comum?

Talvez seja mais simples, sim, e com certeza mais normal, mas também é mais limitativo e não cobre todas as imensas possibilidades da dramaturgia.

A primeira razão para fugir à solução padrão é, obviamente, a liberdade artística.

Só cada autor sabe qual é a forma mais adequada de contar a sua estória. E se, na sua visão particular, acredita que deve separar as diversas funções narrativas por personagens diferentes, é exatamente isso que deverá fazer.

Uma das justificações para essa separação pode ser o facto de haver poucos pontos de afinidade entre um determinado Protagonista e os espectadores.

Num filme como Citizen Kane – O Mundo A Seus Pés, por exemplo, o motor da estória, o magnata Kane, é um personagem fascinante mas também antipático, egoísta e despótico.

É perfeito para Protagonista, pois não lhe faltam objetivos, opositores e drama. Mas a decisão de contar a sua estória do ponto de vista das pessoas afetadas por ele, e não do seu próprio, foi genial e contribuiu grandemente para a força do filme.

Esta separação de águas possibilita também ao autor criar algum distanciamento entre o Personagem Principal e o Protagonista, o que permite analisar as ações deste último com mais isenção.

É o que acontece em O Grande Gatsby, por exemplo.

Seria fácil contar exatamente a mesma estória do ponto de vista do próprio milionário Gatsby. Ele é um homem apaixonado, levado a extremos dramáticos por essa paixão, o que permitiria uma ligação fácil com os espectadores.

Mas ao escolher narrar a estória do ponto de vista do seu vizinho e conhecido de ocasião Nick Carraway, o autor introduziu uma camada de distanciamento que nos permite avaliar melhor as escolhas de Gatsby e as respetivas consequências.

Curiosamente, esse distanciamento pode levar-nos também no sentido oposto, introduzindo alguma ironia dramática na estória.

A separação dos pontos de vista permite, com efeito, dar a conhecer aos espectadores, através do Personagem Principal ou do Narrador, coisas que o Protagonista desconhece.

Um bom exemplo disso é o filme Amadeus.

Mozart é o Protagonista, obviamente. Mas ao acompanharmos a sua vida através dos olhos do Personagem Principal, o seu rival e falso amigo Salieri, conhecemos as manobras deste último para prejudicar Mozart antes do próprio sentir as suas consequências.

Protagonista e um Personagem Principal que é também Antagonista.

A ironia dramática permite-nos também o exato oposto. Ou seja, esconder do espectador coisas que o Protagonista deve necessariamente conhecer.

Uma demonstração muito interessante desta possibilidade é encontrada no já citado O Sexto Sentido.

Cole, o miúdo Protagonista, sabe desde o início uma verdade muito importante acerca do Personagem Principal, o psicólogo Dr. Crowe, que os espectadores e o próprio Crowe só descobrem no fim do filme.

Se a estória fosse contada do ponto de vista de Cole nunca teríamos a surpresa final que tanto contribuiu para o sucesso do filme (e para a venda do guião por 3 milhões de dólares, valor inaudito à época).

Levada ao extremo, a separação irónica entre o Personagem Principal, que narra a estória, e o Protagonista, que a propulsiona, pode mesmo levar o espectador ao engano.

Em Fight Club, por exemplo, o Personagem Principal, Jack, ludibria-nos durante toda a estória em relação à verdadeira natureza do Protagonista, Tyler Durden.

Nenhuma destas estórias seria possível, ou teria o mesmo impacto, se fossem narradas do ponto de vista dos seus respectivos Protagonistas.

Conclusão

Tudo o que foi referido acima não esgota, nem de perto nem de longe, as imensas possibilidades da arte dramática.

Em O Cônsul de Bordéus, um filme que escrevi a partir de um guião inicial de João Correa, a situação é muito mais complexa.

Há uma personagem, jornalista, que entrevista um velho maestro. Através de um longo flashback, o maestro narra-nos uma série de eventos da sua infância, em que foi salvo da perseguição nazi pela coragem e ações do cônsul Aristides de Sousa Mendes.

O cônsul é, assim, o Protagonista da estória central, sendo o maestro, em criança, o seu Personagem Principal, e em velho, o seu Narrador.

Mas o que dizer da jornalista, sem a qual esta estória não seria narrada? No final do filme ela tem uma iniciativa preponderante: reune o maestro com a sua velha irmã, de quem tinha sido separado no passado. Nesta segunda trama a jornalista é a Protagonista e o maestro o Personagem Principal.

As combinações e declinações são, pois, infinitas. Todas as definições tem as suas limitações, por isso não devemos prender-nos demasiado com elas, mas sim considerar como se adaptam melhor às nossas estórias.

Na maioria dos casos fazer coincidir o Protagonista com o Personagem principal é a solução mais simples e adequada.

Mas não é a única possibilidade e, para certas estórias, pode mesmo ser a pior opção.

Compete-nos pois, como autores, avaliar as diferentes escolhas à nossa disposição e não optar automaticamente pela mais comum.

Já fez esse exercício com a estória que está a escrever neste momento? Se não fez, desafio-o a pensar um pouco sobre o tema. Talvez lhe abra novas perspetivas[1].

Notas de Rodapé

  1. E se não está a escrever nada neste momento, desafio-o a fechar já o navegador e abrir um processador de texto. Não basta estudar a escrita; é preciso praticá-la.[]
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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.