As três funções de uma cena

Escrever um guião, em última instância, é escrever cada uma das cenas individuais que o compõem. Se repetirmos o processo com sucesso as vezes necessárias – 100, 150 vezes, o número certo depende de cada estória – teremos um guião nas mãos.

Já publiquei diversos artigos sobre este aspecto particular da nossa arte, por exemplo este e este, e até publiquei um e-book grátis com algumas das abordagens mais interessantes que conheço à escrita das cenas.

Mas como nunca é demais insistir neste tema, volto agora a ele para destacar um aspecto particularmente importante: os três papéis que cada cena deve desempenhar no desenvolvimento de uma estória.

As três funções de uma cena

Todas as cenas de um guião têm de cumprir, no mínimo, uma, se possível, duas, e idealmente, três funções:

  • Fazer a estória avançar;
  • Alimentar a tensão dramática;
  • Revelar o caráter dos personagens.

Se a cena não fizer nada disto, agarre na caneta vermelha e risque-a imediatamente do seu guião; é completamente inútil.

Se cumprir pelo menos uma dessas funções, é possível que tenha lugar no guião. Pode até ser a cena perfeita para um determinado momento e contexto.

Mas tenha cuidado se verificar que todas as cenas cumprem apenas uma função de cada vez. Isso pode ser um sinal de que o seu guião está lento e, provavelmente, monótono.

O que devemos sempre procurar alcançar é que cada cena cumpra pelo menos duas dessas funções em simultâneo e, nos melhores casos, até as três.

Guiões em que isso acontece mais vezes do que o contrário são normalmente mais rápidos e intensos, mas também mais ricos e variados.

Vejamos então, muito rapidamente, alguma estratégias para o conseguir.

Fazer a estória avançar

As estórias são máquinas de transformação.

No final de uma estória a situação, o mundo dos personagens, tem de estar diferente do que era no início, ou então algo está profundamente errado.

E não é só a sua situação; na maior parte das estórias os próprios personagens, e especialmente os protagonistas, sofrem algum tipo de mudança no decurso da estória.

Na verdade, podemos mesmo dizer que, em resultado de uma boa estória, até os leitores, os espectadores, mudam um pouco.

Essa mudança faz-se passo a passo, cena a cena.

Cada cena de um guião nasce naturalmente de uma cena anterior, sendo a sua consequência lógica, e por sua vez dá origem a uma cena seguinte, sendo a sua causa.

Neste processo de causalidade, sem o qual as estórias estão condenadas a parecer aleatórias, é desejável que no fim de cada cena alguma coisa, por mínima que seja, tenha mudado.

Um personagem percebeu algo, outro revelou quem realmente é; dois personagens incompatibilizaram-se – ou reconciliaram-se; o espectador descobre algo que o herói ainda não sabe; um segredo é revelado; uma pista descoberta; um beijo é trocado pela primeira vez; um novo obstáculo surge no caminho; o protagonista fica um passo mais perto – ou mais longe – do seu objetivo.

São estas mudanças pontuais, quando bem geridas, que nos dão a sensação da estória estar sempre a avançar. Sem elas, entramos num marasmo, parados no tempo, estagnados.

As mudanças podem ser positivas ou negativas do ponto de vista dos personagens. É até muito frequente que estes resultados vão alternando entre si: uma pequena vitória é sucedida por uma pequena derrota, que é seguida por outra vitória, que conduz a nova derrota, e assim sucessivamente.

Mas é importante que as mudanças existam, tenham impacto no rumo dos acontecimentos, e sejam percebidas pelos espectadores.

Se tudo estiver na mesma no fim da cena, o espectador tem a percepção de que a estória não avançou. E nós, como autores, temos de perceber que, possivelmente, a cena não é necessária.

Alimentar a tensão dramática

Uma segunda função de cada cena é alimentar a tensão dramática da estória.

Recordo que a tensão dramática não é um exclusivo dos dramas; é um pré-requisito para que qualquer estória, seja ela drama ou comédia, ficção ou documentário, seja interessante e consiga estabelecer uma ligação emocional com os espectadores.

Desde Aristóteles que se reconhece que o acumular da tensão dramática é essencial, pois sem ela não conseguimos ter o tão gratificante efeito de catarse que normalmente associamos ao final de uma boa estória.

Já falei no meu Curso da Fórmula do Drama, Drama = Conflito X Surpresas.

O conflito nasce do confronto entre uma intenção e os obstáculos à sua concretização. As surpresas, por sua vez, são as variações que permitem tornar o conflito mais intenso, interessante e diversificado.

Cada personagem tem objetivos gerais para a sua participação na estória, que se traduzem em objetivos específicos para cada cena. Por isso, quando ele entra numa nova situação leva consigo determinadas expectativas e intenções, que vai tentar concretizar.

Como autores, temos de ter sempre presente na nossa mente quais são esses dois níveis de objetivos dos nossos personagens, os objetivos gerais e os específicos.

Se o nosso herói tem o objetivo geral de salvar a sua mulher, que foi capturada por um bando de terroristas, como acontece com John McLane em Assalto ao Arranha-Céus, o seu objetivo específico numa cena pode ser, por exemplo, estabelecer contato com a polícia no exterior.

É claro que ele irá encontrar todo o tipo de obstáculos e contrariedades para o conseguir, e assim para cada cena sucessiva. São estas dificuldades, sempre novas e variadas, que vão alimentando, e aumentando, a tensão dramática da estória.

Regra geral, os participantes numa cena devem ter objetivos opostos – querem coisas diferentes -, ou o mesmo objetivo por razões diferentes – querem a mesma coisa, mas só um a pode ter.

Uma cena em que todos os participantes estejam de acordo, queiram o mesmo pelas mesmas razões, e não haja nenhum obstáculo à concretização dos seus objetivos é, por definição, uma cena com um nível de tensão dramática muito baixo. Como tal, a sua continuação na estória deve ser avaliada com muito cuidado.

Die Hard é um dos melhores guiões de ação jamais escritos.

Revelar o carácter

A terceira função de uma cena é revelar alguma coisa sobre a personalidade, o carácter dos nossos personagens.

Ao contrário da literatura, no cinema e na televisão (tal como na vida real, aliás) não temos normalmente acesso direto aos sentimentos e emoções, à vida íntima dos personagens.

Estes revelam o que sentem, e mostram o seu carácter, através das suas ações, daquilo que fazem e dizem, do que podemos ver e ouvir no ecrã.

Estas ações e diálogos, por sua vez, nascem das escolhas que os personagens fazem em cada situação em que são colocados.

Compete-nos, então, criar situações quer obriguem os nossos personagens a fazer escolhas que revelem a sua verdadeira personalidade.

Tanto melhor se essas situações forem dilemas, escolhas que não têm uma resposta fácil e óbvia.

Escolhas que implicam riscos e a possibilidade de insucesso são aquelas que mais potencial têm para revelar o carácter dos personagens. Quanto maior o risco, mais verdadeira será essa revelação.

Conclusão

Nem todas as cenas podem cumprir todas estas três funções.

Por vezes, uma cena importante para revelar algum traço de carácter pode não introduzir grandes mudanças na situação nem fazer avançar a estória significativamente. Muda apenas a percepção que os espectadores têm desse personagem, e isso pode ser importante para a experiência da estória.

Noutros casos, uma cena que faz avançar significativamente a trama não revela nada de especial ou substancial em relação aos personagens. É o que acontece, muitas vezes, em sequências de ação, em que vemos os heróis a serem apenas aquilo que são – heróis.

No entanto, uma característica dos grandes filmes e das melhores séries de televisão é a capacidade dos seus autores para conseguirem combinar duas ou até três destas funções num número significativo de cenas.

Quando um argumentista consegue fazer avançar a estória, aumentar a tensão dramática, e revelar o essencial dos seus personagens, em simultâneo, está no patamar mais elevado da sua arte e técnica.

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.