As oito funções dos diálogos

Desde que o cinema ganhou o recurso do som, e a nossa arte passou a ser audiovisual, os diálogos são uma das principais ferramentas ao dispor dos guionistas para escrever guiões mais ricos e interessantes.

Como tal, saber usar essa ferramenta em toda a sua amplitude e complexidade é uma mais valia para qualquer guionista. 

Por exemplo, muitas vezes, é mais fácil integrar numa equipa de escrita um roteirista que tenha genuíno talento para diálogos, mesmo que seja mais fraco noutras áreas, como a estrutura ou a descrição de ações, do que o inverso.

Ler e estudar bons guiões, e livros de autores que se destaquem pela qualidade dos seus diálogos; ver filmes e boas séries de televisão; manter o ouvido atento; e, sobretudo, escrever muito e com frequência, são requisitos essenciais para melhorar a qualidade dos seus diálogos.

Uma forma prática de o conseguir é, sempre que escrever um diálogo, pensar nas funções que ele está a desempenhar.

De forma geral, consigo encontrar-lhes oito funções distintas.

1. Dar informação

Em primeiro lugar, os diálogos servem para dar informação.

Essa é a sua função mais básica e é também, frequentemente, onde são cometidos os maiores erros na sua utilização.

Alguns autores pouco experientes usam os diálogos apenas para a exposição linear, ou seja, para enfiar informação no ouvido dos espectadores.

Como é óbvio, isso é, no mínimo, um mau aproveitamento de todo o potencial dos diálogos.

No entanto, por vezes, é mesmo necessário passar algum tipo de informação entre personagens, dentro da estória, ou aos espectadores que estão a assistir.

Nesses casos, temos de ter algumas preocupações, começando por aquela velha máxima: “Menos é mais”.

Devemos procurar sempre a forma mais económica de dar a informação. O que pode ser dito numa frase, não deve ser dito em duas ou três. 

Melhor ainda, se tivermos a alternativa de dar essa informação de uma forma visual é melhor começar por aí. Aplica-se aqui outra antiga máxima da escrita: “Não digas; mostra”.

Além disso, é melhor procurar sempre formas de apresentar a informação de uma maneira mais interessante, enquadrando-a dentro de outros tipos de comunicação, por exemplo, numa discussão ou numa troca de palavras com impacto emocional.

É um pouco como se faz com os comprimidos dos cães, disfarçando-os no meio de outra comida mais saborosa e interessante.

Finalmente, devemos ter cuidado para que haja uma motivação credível, uma justificação lógica para dar a informação.

Um personagem não pode simplesmente entrar em cena e debitar informação, sem uma razão para isso.

No mínimo, tem que responder a uma pergunta de outro personagem, que por sua vez deve ter uma razão lógica para colocar essa questão.

Encontrar outras boas razões para justificar a exposição de informação é um dos exercícios mais interessantes para melhorar a nossa escrita.

2. Esconder informação

Em segundo lugar, os diálogos servem também para esconder informação. E aqui, as coisas começam a ficar mais interessantes.

Os personagens nem sempre dizem a verdade e nem sempre revelam tudo o que lhes vai na mente ou no coração.

Muitas vezes falam de uma coisa, mas percebemos que estão a falar de outra. Ou dizem uma coisa, e nós entendemos que querem dizer exatamente o oposto.

É o que se chama de subtexto.

O subtexto são as verdades, os sentimentos, as intenções reais que ficam escondidas por trás da cortina de fumo do discurso dos personagens.

Usar o subtexto de forma inteligente, confiando na inteligência do espectador para decifrar esses pequenos enigmas que introduzimos no texto, é uma outra excelente forma de diferenciar os nossos diálogos.

Tanto subtexto nesta cena…

3. Revelar a personalidade

Em terceiro lugar, os diálogos servem também para revelar a personalidade dos nossos personagens.

Ao contrário de um livro, num filme não temos acesso ao que vai no interior dos personagens, ao seu monólogo interno.

É apenas através das suas ações, que resultam das escolhas que fazem em cada situação, que percebemos a personalidade de cada um.

Quando, face ao mesmo dilema, um personagem mente e outro diz a verdade, essa escolha de palavras diferencia-os aos olhos do espectador.

Se um personagem fala de forma diferente aos seus subordinados do que aos seus superiores, isso também define o seu carácter.

Os exemplos podiam multiplicar-se, pois as palavras são espelhos que refletem a personalidade dos nossos personagens.

De igual forma, também podem servir para mostrar a sua transformação ao longo da estória.

Se o personagem que mentiu antes, mais tarde escolhe dizer a verdade numa situação semelhante, isso pode ser um sinal de que ele mudou, o que é sempre muito gratificante para os espectadores.

4. Caracterizar os personagens

Os diálogos não se limitam a revelar a personalidade mas servem também para caracterizar os personagens, o que é uma quarta função.

Fazem isso não apenas através do que os personagens dizem, e do que escondem, mas também da forma como o dizem.

São mais tímidos ou mais assertivos? Falam depressa ou devagar? Em tom alto ou mais baixo?

Que vocabulário escolhem, que calão usam, que sotaque têm?

Como constroem as suas frases? Mais curtas ou mais longas?

Como falam em casa, com a família, e no trabalho ou no bar, com os colegas e amigos?

Normalmente, um médico falará de uma maneira diferente de um pescador, ou de um polícia, ou de um traficante. E um médico mais velho, ou um pescador mais velho, falarão de uma maneira diferente dos médicos e pescadores mais novos.

Não quer dizer que não podemos pôr um pescador jovem a falar como um médico velho, mas isso será uma escolha intencional que tem um grande impacto na caracterização desse personagem.

Neste aspecto, um outro grande erro, que é cometido frequentemente, é todos os personagens falarem de forma muito semelhante entre si ou, pior ainda, todos falarem de forma semelhante ao próprio autor.

É importante encontrar a personalidade certa para cada personagem e, igualmente, encontrar a forma certa de mostrar a sua origem e características.

5. Avançar a trama

Uma quinta função dos diálogos é  fazer avançar a trama.

Os diálogos são, como vimos, uma forma de ação.

Os personagens têm objetivos, procuram informações, querem impor escolhas ou forçar decisões, e uma forma de o conseguir é através das palavras.

Em algumas situações, é em função das palavras que escolhem, e dos resultados dessas palavras, que as situações mudam, positivamente ou negativamente.

Essa mudança faz avançar a trama e vai, progressivamente, construindo o enredo da estória.

6. Alimentar o conflito

É claro que as palavras dos personagens nem sempre são recebidas da maneira que eles esperavam.

Por vezes encontram resistência e oposição, o que serve para  alimentar o conflito na estória. 

Essa é a sexta função dos diálogos.

O conflito, como eu não me canso de dizer, é o que cria a tensão dramática nas estórias.

Ele nasce do choque entre as intenções de um personagem e a resistência que ele encontra.

Quando essas intenções se manifestam através de palavras, a resistência pode manifestar-se da mesma forma, em palavras, o que conduz a diálogos ricos, tensos, profundos, dramáticos.

Isto não acontece apenas através de discussões, cheias de gritos e palavras agressivas, embora possa assumir essa forma.

Por vezes é por baixo de uma grande cordialidade, recheada de palavras educadas e até carinhosas, que entrevemos forças e intenções escondidas, opostas num conflito igualmente temível.

Dois dos melhores atores de sempre, em conflito.

7. Causar emoções

Uma sétima função dos diálogos é causar emoções.

As estórias são máquinas de gerar emoções, mecanismos muito afinados que se destinam, de certa forma, a manipular os ouvintes, os leitores e os espectadores para lhes arrancar um determinado tipo de reação emocional.

Quando contamos uma anedota esperamos ouvir uma gargalhada, ou pelo menos ver um sorriso.

Num filme de terror, tentamos causar alguns sustos. E, num filme de suspense, tentamos criar suspense, essa forma controlada de ansiedade.

Os diálogos são uma ferramenta importante para gerar essas emoções.

Quantas vezes não chorámos no fim de um filme ou episódio de televisão, depois de um diálogo mais emocional?

Muitas vezes, com certeza, e isso é sinal de que os autores dessas obras fizeram bem o seu trabalho.

8. Criar momentos memoráveis

Finalmente, a oitava função dos diálogos é criar momentos memoráveis.

Todos nós temos as nossas citações favoritas de filmes ou de séries de televisão, frases ou diálogos que recordaremos para sempre.

Não há nenhum português, pelo menos da minha idade, que não se recorde da provocação “Ó Evaristo, tens cá disto?”, do filme O Pátio das Cantigas. E poucos amantes de cinema não saberão a origem do famoso “I’ll be back”, recordando-o até com o sotaque carregado de Arnold Schwarzenegger.

É evidente que estas frases ou diálogos memoráveis são como os vídeos virais; não basta querer para conseguir criá-las.

Mas quando estamos a escrever podemos, pelo menos, tentar introduzir alguns diálogos com essa intenção, na esperança de que se fixem na memória dos nossos espectadores.

Conclusão

Normalmente todos os diálogos incluem alguma combinação destas oitos funções. É a variação, riqueza e imaginação com que as usamos que torna a sua escrita mais interessante e memorável.

Em contrapartida, nem todos os diálogos precisam, ou devem, cumprir todas as oito funções. Podem, em última instância, só cumprir uma ou duas delas, e ser igualmente poderosos e bem sucedidos.

Mas se não cumprirem nenhuma destas funções, o que é que estão a fazer no nosso guião, além de encher páginas?

Caneta vermelha neles!

Recursos ADICIONAIS

Já publiquei muitos artigos com grandes diálogos do cinema, como por exemplo este de Matrix ou este de O Silêncio dos Inocentes.

Também publiquei recentemente um vídeo no YouTube sobre como escrever melhores diálogos.

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller apaixonado por contar estórias e ajudar outras pessoas e marcas a contar as estórias delas. Divide o seu tempo entre Portugal, Brasil e Angola, tendo já escrito mais de 3500 páginas de guiões produzidos de longas metragens, telefilmes, séries de televisão e curtas.

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